segunda-feira, 8 de junho de 2026

INAUGURADO O NOVO SEMINÁRIO SÃO JOSÉ, DE PESQUEIRA

 

Seminário São José em Pesqueira, s/d. Acervo desta página.

Compareceu todo o clero desta Diocese — Presente o Cônego Carlos Bacelar, representando a Arquidiocese e o Cabido Metropolitano de São Luís do Maranhão. Como decorreram as solenidades — outras notas.

Conforme fora amplamente noticiado, realizou-se, na última terça-feira, às 9h30, a solene inauguração do Seminário São José, notável realização de S. Excia. Revma. D. Adalberto Sobral, fincado ao sopé do Ororubá.

Na hora aprazada, os automóveis em corso conduziram do Palácio Episcopal ao novo Seminário o Sr. Bispo Diocesano, o Cônego Carlos Bacelar, autoridades civis e militares, vários sacerdotes, representantes do Convento São Francisco, industriais, comerciantes e pessoas gradas. À frente do estabelecimento em apreço achavam-se famílias, o Colégio Santa Doroteia, o Ginásio Cristo Rei, alunos do Seminário, associações religiosas, representações de outras cidades e o povo em geral.

À chegada do séquito, fogos estridularam no espaço e a Banda de Música 11 de Setembro executou um dobrado, enquanto fremiam os vivas e as palmas. No céu, um avião executava acrobacias, lançando flores sobre o Seminário.

O Sr. Bispo alcança o pórtico e delega ao Cônego Bacelar o corte da faixa simbólica. Em seguida, dirige-se S. Excia. Revma. à capela, acompanhado de todo o clero, autoridades, famílias etc. Dali, segue rumo ao claustro, realizando a bênção do novo estabelecimento. Seguem-no em cortejo o clero, as autoridades e elementos das classes conservadoras. Todo o prédio foi percorrido para efeito dessa cerimônia. Ouvem, em seguida, os presentes os cantos dos alunos do Seminário, dirigindo-se, após, S. Excia. Revma. e demais autoridades para o salão nobre. Nesse recinto, foi inaugurado o retrato do Exmo. Sr. Bispo Diocesano. Usou da palavra o pároco desta freguesia, Pe. Noval José de Oliveira, apresentando o Revdo. Luiz Madureira, orador oficial. Em palavras candentes de entusiasmo e veneração, o orador comenta a realização de S. Excia. Revma. D. Adalberto Sobral. Depois, lê o telegrama há pouco recebido de Roma e assim redigido: “Cidade do Vaticano — Exmo. Monsenhor Sobral — Pesqueira. O Sumo Pontífice gloriosamente reinante, por motivo da inauguração do novo Seminário, envia a V. Excia. e à Diocese a bênção apostólica, auspício de rica vida espiritual para o Seminário, bem como propiciatórias graças celestes extensivas aos superiores, alunos e benfeitores. Montini — Secretário Substituto”.

Palmas ecoaram no espaço e, de todas as fisionomias, brotaram sorrisos de intenso júbilo. Depois, foi lida pelo Pe. Madureira a ata, recebendo a assinatura do Sr. Bispo Diocesano, das autoridades e demais presentes.

Terminada a cerimônia, realizou-se uma manifestação ao Exmo. Sr. Bispo no auditório, usando da palavra o Pe. Augusto de Carvalho, reitor do Seminário, sendo muito aplaudido. Ouve-se o órgão do Colégio Santa Doroteia. A seguir, usaram da palavra um aluno do novo Seminário e um seminarista da Diocese, estudante do estabelecimento congênere de Olinda. O orfeão do novo Seminário executa um harmonioso número. Em seguida, discursam o Pe. Hermano Hans, autor da planta do prédio recém-inaugurado; o inteligente e culto maranhense Cônego Bacelar; e, finalmente, o Sr. Bispo D. Adalberto Sobral, cujas palavras transcrevemos a seguir:

Fotografia do livreto em homenagem a D. Adalberto Sobral,
Bispo de Pesqueira, nas suas Bodas de Prata de Sacerdócio, 1936.

Revmos. Padres, Exmas. Autoridades, Digníssimas Senhoras, Meus Senhores:

Grandes são as emoções de nossa alma neste instante. Ao acontecimento marcante na vida da Diocese de Pesqueira, que é a inauguração de seu novo Seminário, quisestes juntar, meus queridos Padres, esta homenagem tão carinhosa ao vosso Bispo de ontem, irmão e amigo de sempre. Homenagem cujo merecimento deixamos aos eternos juízos de Deus e na qual vemos mais uma prova do vosso bem-formado espírito sacerdotal e de vossa comprovada fidalguia. Soldados sempre prontos na obediência e no cumprimento do dever, incansáveis no zelo, edificantes no espírito de piedade, insuperáveis no sacrifício e na renúncia, nós vos encontramos sempre colaboradores decididos do nosso múnus pastoral, nesse ingente trabalho pelo bem espiritual de nossa amada Diocese, durante os treze anos de nossa permanência nos sertões queridos do glorioso Pernambuco.

Não é agora o momento de vos darmos o nosso adeus, de vos apresentarmos nossas despedidas; estas se encontram expressas nas modestas linhas de nossa carta pastoral e, mais que isso, impressas indelevelmente nos íntimos refolhos de nosso coração. É, porém, a hora do agradecimento, e este queremos fazê-lo em público, neste momento culminante da vida da Diocese, para que todos o recebam como solene testemunho da estima que vos dedicamos. Vosso gesto, tão nobre quanto comovente, fica impresso em nossa alma com as tintas inapagáveis da verdadeira estima e do sincero reconhecimento; gesto tanto mais cativante quanto, para levá-lo a efeito, escolhestes esta memorável hora que estamos vivendo.

Senhores, o término desta empresa, que alguém chamou arrojada e audaciosa para os sertões, é uma prova irrefragável da assistência divina à pobre criatura. Com o coração cheio de apreensões, mas com a alma inundada de confiança, aos pés da Padroeira do Brasil, em Aparecida, anunciamos o desejo de dotar nossa querida Diocese com um Seminário à altura de suas altas finalidades e satisfazendo às exigências da moderna pedagogia. Naquele inesquecível 21 de novembro de 1944, aniversário de nossa primeira missa e data natalícia do saudoso D. José Lopes, lançávamos a primeira pedra do edifício. Desde então, foi uma constante porfia, um continuado estímulo de todos os lados, parecendo mesmo que a Misericórdia Divina havia desafiado a nossa capacidade, pois a cada esforço do Prelado, a cada sacrifício dos Padres, a cada prece dos fiéis, correspondia à bondade de amigos com óbolos de vulto, dádivas generosas que nos permitiam ir satisfazendo, com a máxima regularidade, os compromissos assumidos com a construção. Venceu a Misericórdia Divina, pois somente o seu poderoso auxílio, a sua assistência eficaz, nos permitiu levar a cabo obra de tal valor.

Felizes na escolha do local da construção, felizes no traçado da planta entregue ao renomado arquiteto Pe. Hermano Halm, traçado que mereceu os maiores encômios de engenheiros de Pernambuco e do sul do país, tivemos ainda o cuidado de confiar a execução dos trabalhos ao conceituado engenheiro Dr. J. B. Toni, que nos foi apresentado por um dedicado amigo, o Revmo. Frei Pedro, Provincial dos Padres Franciscanos.

Quando o engenheiro construtor, por ter sua residência em Campina Grande, não pôde dar contínua assistência aos trabalhos, veio em auxílio da construção o Revmo. Pe. Antônio Duarte. Renunciando à paróquia, o Pe. Duarte dedicou-se de corpo e alma aos trabalhos, sem medir canseiras, sem olhar sacrifícios. Horas a fio, absorvido nos vários problemas que surgiam, no alto dos andaimes ou à mesa do escritório, examinando aqui, observando acolá, esquecido de quaisquer comodidades, sacrificou até a saúde com o único interesse de levar a obra a bom termo e colaborar do melhor modo para esta esplêndida vitória que hoje se inscreve nos anais da Diocese de Pesqueira. Neste momento, é mais que justo seja o nome do Pe. Duarte alvo de especial menção, pois o Prelado e a Diocese lhe são devedores de imensa soma de reconhecimento.

Impossível seria declinar um por um os nomes daqueles que auxiliaram com donativos a realização desta empresa. Precisaríamos de horas para desfiar as contas deste verdadeiro rosário de gratidão; preferimos, pois, entregar ao Supremo Remunerador de todos os bens a tarefa de levar a cada um, em bênçãos escolhidas, a manifestação de nosso reconhecimento e a recompensa de sua generosidade. Mas não pode calar a nossa consciência o dever de um registro, a menção de um nome: o de Manuel de Brito. Todos já sabem que a sua contribuição de duzentos mil cruzeiros foi a maior que recebemos. Entretanto, por mais significativo que seja esse gesto, não se pode compará-lo, em espécie e nos seus efeitos, ao apoio moral e à dedicação sem limites de que Manuel Brito nos cercou em todos os momentos. Ligado ao nosso coração por laços de uma estima que muito nos honra e que Deus abençoe, sentimos em todos os instantes o conforto de sua solidariedade incondicional. Chefe de uma poderosa organização industrial, ele abriu as comportas de sua generosidade, colocando às nossas ordens meios de transporte e outros recursos técnicos de que dispõe a Fábrica Peixe. E foi tal a sua dedicação que, em breve, sentíamos bem ao vivo os efeitos de seu contagiante entusiasmo por esta realização. Desde os diretores e gerentes aos demais auxiliares imediatos, desde o chefe de oficinas ao modesto e anônimo ajudante de caminhão da fábrica, todos, sem exceção, demonstraram o máximo zelo e interesse por tudo quanto dizia respeito à construção do novo Seminário. Se fora possível fazer falar este edifício, desde o alicerce até o campanário que domina toda a construção, diriam eles da colaboração de Manuel Brito para a realização desta obra. Fala, porém, o humilde Bispo, que agradece comovido seu cativante e decidido apoio e inscreve o seu nome nos fundamentos desta casa, como seu maior benfeitor, inscrito já o foi, desde há muito, em nosso coração como um dos melhores amigos.

Senhores, as alegrias que meu espírito experimenta nesta hora têm um misto de pungente saudade. Dizem, com razão, que o pensamento da morte se torna mais familiar àqueles que, na expressão de um escritor, “começam a descer a encosta ocidental da montanha da vida”. Não nos pudemos também nós furtar à lei, a esta espécie de sombra que se projeta sobre o nosso coração no ocaso da existência. Fomos agraciados com o singular privilégio de ser bispo em Pernambuco, vivendo no meio de uma heroica gente, cuja bravura e cujo heroísmo douram as páginas da nossa história. Tivemos como sede episcopal esta progressista cidade, cujo povo se distingue pelo seu admirável espírito religioso e pela nobreza de seus sentimentos. Por demais contentes com tais favores da munificência divina, já divisávamos pela imaginação a nesga de terra onde deveriam repousar nossos despojos, felizes porque encerrados no solo pernambucano e cobertos pela abóbada azul deste incomparável céu brasileiro. Diríamos, talvez, que a Providência nos traiu em nossos anseios quando, assoberbados, recebemos a notícia da nossa transferência para o sólio arquiepiscopal do Maranhão. O voto de obediência nos leva para longe deste povo; seguimos para o novo posto com a mesma confiança e com as mesmas disposições de consumir nossas derradeiras energias pela glória de Deus e pelo triunfo desta Igreja a quem juramos servir. Irá conosco, porém, indelevelmente gravada em nosso coração, a Diocese de Pesqueira e, com ela, o seu zeloso clero e a sua boa gente, presos todos pelos laços da mais lídima estima, laços que a distância e o tempo só farão apertar ainda mais.

Agradecemos a presença das Exmas. autoridades a esta cerimônia, confortando-nos com a sua solidariedade e partilhando das nossas alegrias.

Fazemos extensivo este agradecimento ao Revmo. Clero, às representações de classe, às associações religiosas e ao povo em geral.

Agradecemos aos representantes da imprensa a sua presença a este ato e queremos salientar quão grato é para nós vê-los aqui neste momento. Encarregados de transmitir ao povo a verdade, irão certamente dizer que Deus operou, com esta construção, um milagre nestes benditos sertões.

Cônego Carlos Bacelar. Foto Jornal do
Maranhão, 27/07/1961.

Registramos com carinho a presença de um representante da veneranda Arquidiocese do Maranhão, o Revmo. Cônego Bacelar. Deixando os rincões longínquos de São Luís para vir aos sertões queridos de Pernambuco, traz-nos S. Revma., com este gesto, o amplexo filial do novo rebanho que Nosso Senhor nos confiou. Diga o Cônego Bacelar à Arquidiocese de São Luís quanto ficamos honrados e reconhecidos por essa fidalga prova de consideração que nos foi proporcionada.

E aqui terminamos, meus senhores, invocando para todos vós a bênção divina, único e seguro penhor da verdadeira felicidade.

A Voz de Pesqueira, ano X, nº 35, edição de 15 de junho de 1947.

***

NOTA DO EDITOR:

Placa da Inauguração do Seminário São José. Nela, observa-se a data de 25/05/1947,
que provavelmente se refere à conclusão da obra, visto que as solenidades inaugurais
ocorreram em 10/06/1947. Acervo desta página.

No dia 10 de junho de 1947, Pesqueira viveu uma das mais significativas celebrações de sua história religiosa e educacional com a inauguração do Seminário São José. A solenidade, registrada em detalhes pelo jornal A Voz de Pesqueira em sua edição de 15 de junho de 1947, reuniu todo o clero da Diocese, autoridades civis e militares, representantes de diversas instituições e uma multidão de fiéis que acorreu ao sopé da Serra do Ororubá para testemunhar a concretização de um antigo sonho de Dom Adalberto Accioly Sobral.

A chegada do bispo e das autoridades ao novo edifício foi marcada por grande entusiasmo popular. Fogos de artifício, apresentações da Banda de Música 11 de Setembro e até mesmo um avião que lançou flores sobre o seminário deram um tom festivo à cerimônia. Após o corte da faixa inaugural pelo Cônego Carlos Bacelar, representante da Arquidiocese de São Luís do Maranhão, seguiram-se a bênção das instalações, homenagens e discursos que exaltaram o significado da nova instituição para a Diocese de Pesqueira.

Seminário São José, s/d. Acervo desta página.

Embora a reportagem original de A Voz de Pesqueira não tenha sido publicada com fotografias, esta edição incorpora imagens históricas do Seminário São José como complemento documental, permitindo ao leitor visualizar o edifício e alguns aspectos de sua trajetória. As fotografias aqui reproduzidas contribuem para enriquecer a compreensão do acontecimento e preservar a memória de uma das mais importantes realizações religiosas, educacionais e arquitetônicas da história de Pesqueira.

Em seu pronunciamento, Dom Adalberto Sobral relembrou os desafios enfrentados desde o lançamento da pedra fundamental, em 21 de novembro de 1944, agradecendo aos sacerdotes, benfeitores e colaboradores que contribuíram para a realização da obra. Entre os homenageados destacou-se o Pe. Antônio Duarte, cuja dedicação foi fundamental para o acompanhamento dos trabalhos de construção.

A emoção daquele momento também foi traduzida em poesia. Durante as festividades de inauguração, o Pe. Antônio Duarte recitou o soneto “Seminário São José”, uma bela homenagem ao novo estabelecimento de ensino e formação sacerdotal:

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ

Ao pé da Ororubá, no topo de um outeiro,
Garboso como um rei, num trono de brilhante,
O grande Seminário, encantador, gigante,
Vai surgindo risonho, esbelto e prazenteiro.

Subirá com nobreza o píncaro altaneiro
Para ser no porvir um astro fulgurante,
Um cenáculo de Deus! Sacrário flamejante
Dos levitas do Céu, do Cristo verdadeiro.

Será futuramente um marco assinalado,
Um pedestal de luz na vida de um Prelado,
O grande Seminário imerso, colossal!

Num preito carinhoso, em voz alvissareira
Cantará para sempre as glórias de Pesqueira,
Louvando e bendizendo: — Bispo Dom Sobral.

O soneto sintetiza o sentimento de orgulho e esperança que envolveu a inauguração do Seminário São José. Erguido em posição privilegiada aos pés da Serra do Ororubá, o edifício era visto como um símbolo de progresso espiritual e educacional, destinado a formar gerações de sacerdotes para servir à Igreja e à sociedade.

Passadas décadas, a reportagem de A Voz de Pesqueira e os versos de Pe. Antônio Duarte permanecem como preciosos registros históricos de um dos acontecimentos mais marcantes da trajetória da Diocese e da cidade de Pesqueira, celebrando a fé, a perseverança e o legado de Dom Adalberto Sobral.

Por Fábio Menino de Oliveira


quinta-feira, 4 de junho de 2026

INAUGURAÇÃO DO SEMINÁRIO SÃO JOSÉ

 

Fachada e vista lateral do Seminário São José na sua inauguração em 10/06/1947.
 Foto: A Voz de Pesqueira.

Pesqueira assistirá terça-feira próxima à solenidade de inauguração do novo Seminário São José, realização esplendorosa do Revmo. D. Adalberto Sobral, Bispo de Pesqueira e Arcebispo do Maranhão.

Obra gigantesca, o Seminário São José erguido na fralda oriental do Ororubá, domina toda a paisagem pesqueirense, tornando-a mais pitoresca desde que esta notável massa arquitetônica modelada em linhas neorromânticas, veio completar o ambiente com o seu aspecto evocativo, convite permanente à meditação e aproximação às coisas de Deus, merecendo de todos os que formam esta comuna, o mais dedicado dos afetos e o mais votivo dos interesses.

Desde o pórtico ao auditório, ao visitante apressado ou displicente, a majestosidade interior do Seminário construído por D. Adalberto Sobral, os contornos de sua igrejinha, o lançamento do claustro, as sutilezas do artista poetizando os recantos do magnífico templo e viveiro daqueles que imolam a vida profana, dedicando-se inteiramente ao sacerdócio divino, pois bem, aos que se dão a conhecer o Seminário, mesmo ligeiramente, hão de sentir a beleza singela em consonância com o grandiosamente ambiente, deste notável empreendimento.

Aos que inspecionam, conhecendo todos os detalhes da obra uma identificação de arte e bom gosto, a crítica e a opinião decerto serão das mais lisonjeiras, senão entusiasticamente.

A imprensa da terra, representada por onze anos de serviços prestados à coletividade, não poderia olvidar esse acontecimento, omitindo-o ou relegando-o ao secundarismo dos registros, declinaria criminosamente no conceito urbano do povo, porque fugiria à realidade de si mesma como intérprete dessa mesma coletividade.

Deixa D. Adalberto Sobral fincado ao sopé do Ororubá, um marco indelével de sua profícua administração, do seu acrisolado zelo à obra das vocações sacerdotais, do seu amor ao rebanho que soube conduzir com segurança no decorrer de onze anos.

A VOZ DE PESQUEIRA contempla o Seminário São José, meditando no esforço e na dedicação de seu operoso realizador.

A Voz de Pesqueira, ano X, nº 34, edição de 8 de junho de 1947.

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O Seminário São José, s/d. Acervo desta página.

NOTA DO EDITOR.

O Seminário São José foi inaugurado em 10 de junho de 1947, às 10h, por Dom Adalberto Accioly Sobral  dia da solenidade de Corpus Christi, em uma grande celebração que mobilizou a cidade de Pesqueira. As festividades incluíram a primeira Missa na capela do Seminário, o toque dos sinos, sirenes das fábricas, fogos de artifício e o lançamento de pétalas de rosas pelo avião “Pesqueira”. Na presença de autoridades civis e religiosas, o Cônego Carlos Bacelar realizou o corte da fita inaugural. A cerimônia foi concluída com a leitura de um telegrama do Papa Pio XII, que felicitava o bispo, o clero e os seminaristas, marcando oficialmente a inauguração do Seminário Menor da Diocese de Pesqueira.

Por Fábio Menino de Oliveira.


domingo, 24 de maio de 2026

PESQUEIRISMO: SENTIMENTO, HISTÓRIA E PERTENCIMENTO

 

Professor José Cavalcanti Sá Barreto.
Foto: Diário de Pernambuco, 24/2/1952.

Augusto Duque, na crônica Breves reflexões sobre o pesqueirismo, publicada no Diário de Pernambuco, edição comemorativa do centenário de Pesqueira, em 19 de abril de 1980, assim escreveu: “Existe mesmo um ‘pesqueirismo’, do que ouvi falar, pela primeira vez, em 1946, em discurso do prof. José Cavalcanti Sá Barreto, o que registrei em trabalho publicado em 1947.”

A obra citada é Documento sobre o Agreste, a primeira a registrar o novo termo e na qual Augusto Duque interpreta o neologismo pesqueirismo, dito pelo professor Sá Barreto, como o “sentimento regionalista, aquele evidente bairrismo entusiasta dos filhos da cidade serrana.”

O professor José Cavalcanti Sá Barreto (Pesqueira-PE, 18/05/1912 – Recife-PE, 19/05/1985) era filho de Austriclínio de Castro Sá Barreto (1883-1929) e Herundina Cavalcanti Sá Barreto (1878-1961), que se casaram em Pesqueira no dia 2 de outubro de 1908. Neto paterno de José de Castro Sá Barreto e Belmira Genuína Loiola da Rosa. Neto materno de Manoel Bezerra Cavalcanti e Teresa Bezerra de Siqueira Barbalho.

O professor Sá Barreto foi catedrático de Literatura Italiana na Faculdade de Filosofia de Pernambuco e de Latim no Instituto de Educação de Pernambuco. Além dessas cátedras, lecionou na Escola Normal Oficial, no Colégio Pernambucano, no Colégio Estadual do Recife e no Curso de Ciências da Administração da Universidade Católica de Pernambuco. Exerceu as funções de presidente em exercício do Conselho Estadual de Educação (1965) e foi seu vice-presidente (1964-1976). Por sua atuação na educação pernambucana, foi agraciado com o título de Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco (1983).

Contudo, não foi apenas no magistério que o professor se destacou; ele também militou na política, atuando como presidente estadual do Partido da Representação Popular (PRP), sendo candidato a deputado estadual nas eleições de 1947. Ficou na primeira suplência, visto que o eleito do partido foi o médico Dr. Lídio Paraíba. Tendo sido candidato a deputado federal em 1950, não logrou êxito no pleito.

Um adendo importante é que Augusto Duque foi seu companheiro de partido, e os membros do PRP reuniam-se todas as quintas-feiras, às 20h, na sede localizada à Rua Santa Cruz, nº 100, Boa Vista, Recife. O que nos permite inferir que possa ter sido em uma dessas reuniões, no ano de 1946, que o termo pesqueirismo tenha sido dito pela primeira vez, em mais um dos discursos de oratória eloquente e vibrante, característicos da intelectualidade do mestre.

O professor Sá Barreto foi casado com Dorothy Montenegro Sá Barreto, e da união nasceram os seguintes filhos: Maria Lúcia, Teresa Cristina, Rosa Maria, Maria das Graças, Ana Catarina, José Mário e Carmem Virgínia Montenegro Sá Barreto.

Antes de constar no trabalho de Augusto Duque, o pesqueirismo é citado n’A Voz de Pesqueira, edição de aniversário de 20 de outubro de 1946, onde, para justificar o aumento do preço da tabela de anúncios, foi escrito: “Mantendo-se este órgão de imprensa somente por pesqueirismo, por abnegação à terra [...]”.

Desembargador Augusto de Souza Duque.
Retrato: Leite, s/d, TJPE.

Augusto Duque nasceu em Pesqueira, em 1918, formando-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1944, onde posteriormente atuou como professor assistente. Nomeado desembargador em 1956, chegou à presidência do Tribunal de Justiça de Pernambuco em 1965 e assumiu o cargo de corregedor-geral em 1983. Como escritor, deixou significativa contribuição para a área jurídica e para o pesqueirismo, sobretudo com a obra Documento sobre o Agreste, considerada um clássico sobre a temática. Filho do também ilustre pesqueirense Gumercindo Saraiva Duque, o “Duque do Norte”, Augusto Duque foi um dos principais intérpretes e defensores do ideal do pesqueirismo ao longo do século XX.

Coube ao ilustre pesqueirense, o desembargador Augusto Duque, a missão de detalhar em seus escritos o pesqueirismo em suas nuances. Na obra Documento sobre o Agreste, escrita em 1947, ele explica que os “estudos tiveram uma iniciativa e um estímulo pessoais, animaram-se no fogo sentimental que me fez valorizar e querer fazer jus à descendência dos antigos donos do agreste.” Cabe registrar que Duque era descendente do capitão-mor Manuel José de Siqueira, fundador de Pesqueira.

Mas não é só isso que explica o vínculo tão forte com Pesqueira. Como bem deixa claro, a fonte foi seu pai, o tabelião Gumercindo Saraiva Duque, que, sob o pseudônimo de Duque do Norte, escreveu o folheto A Cidade de Pesqueira em 1920, publicado em 1922. Reeditado em 1980, por ocasião do Centenário de Pesqueira, Augusto Duque escreveu um apêndice sobre o pesqueirismo.

Na segunda e na terceira estrofes do livro de Gumercindo Saraiva Duque, assim está escrito:

 

“Se existem para o homem

Horas de felicidade,

Que mesmo na alta velhice

Sente viva a mocidade,

É quando um dia na vida,

À sua Pátria estremecida

Ele jura lealdade.

 

Pesqueira é a minha pátria

Querido torrão natal

Amo-a acima de tudo

Jurei a ela ser leal.”

 

Nas palavras de Augusto Duque, nessa declaração de amor a Pesqueira está o manifesto do que o professor Sá Barreto definiria como pesqueirismo. Este seria muito maior do que sentimentos, porquanto é um movimento de ideias para fortalecer o patriotismo municipal, enquanto elemento celular que forma a grande pátria. Afinal, o Brasil, como nação, surge a partir dos municípios, as chamadas pátrias municipais.

De acordo com Duque, o pesqueirismo é a “manifestação de amor telúrico que faz sentir viva a mocidade, mesmo quando ela já se foi; que faz voltar a ser menino, com os encantos dessa fase, sufocando dores que acompanham a vida, em permanente reconstituição proustiana, onde tudo é recordação querida.”

O ilustre pesqueirense Potiguar Matos, na crônica As velhas garrafas, publicada no Diário de Pernambuco em 1º de março de 1979, com a maestria tão própria de seus escritos, assim definiu o pesqueirismo: “a dor, a alegria, a saudade e o orgulho da terra pequena, fincados, como um punhal no coração, nos acompanhando pelas andanças do mundo, vasto mundo que os trilhos da Great Western sugeriam à nossa adolescência sequiosa.”

Diante do exposto, o pesqueirismo nasceu como expressão de amor e saudade, assim como é possível perceber na criação do professor Sá Barreto e nas palavras de Augusto Duque e Potiguar Matos — três filhos que precisaram deixar seu torrão natal para construir a vida e a carreira profissional no Recife. Contudo, jamais esqueceram a sua amada Pesqueira.

O grande momento do pesqueirismo deu-se por ocasião do Centenário de Pesqueira, quando a união de ilustres pesqueiristas, a partir do final da década de 1970, começou a organizar as festividades que ocorreram em 1980. Dessa geração de ouro, podemos citar: Potiguar Matos, Luís Wilson, Nélson Barbalho, Augusto Duque, Everardo de Almeida Maciel, Waldemir de Oliveira Lins, Oton Augusto de Almeida, Pe. José Maria da Silva, Pe. Eduardo Valença, Luiz Neves, Francisco Neves, Jarival Cordeiro do Amaral, Severino Melo, Nélson Valença, Sílvio Lins, Aloísio Falcão, Nivaldo Burgos, Pedro Santa Cruz, José Florêncio Neto, Givanildo Paes Galindo, José Carlos Freire, Moacir Brito de Freitas, Laurene Martins, Eugênio Maciel Chacon, José Figueiredo de Matos, Rinaldo Jatobá, Gilvan de Almeida Maciel, Luís Cristovão dos Santos, Fausto Freitas, Nair Falcão, Djanira Silva, Zuleide Siqueira e Odete Andrade.

Na atualidade, falando do ponto de vista da preservação histórica, é referência o trabalho do historiador Marcelo O. Nascimento com o projeto Pesqueira Histórica, cuja missão, há 15 anos, é a divulgação do pesqueirismo, para que se mantenha vivo e duradouro, mesmo com todas as dificuldades da contemporaneidade.

Ao que se soma o rabiscador destas linhas, por meio da página Pesqueira Lendária e Eterna e dos projetos pedagógicos Pesqueira: Nossa Gente, Nossa História (2025) e Pesqueira das Letras: à luz da palavra dos seus literatos (2026), elaborados com o intuito de valorizar a história e a memória de personalidades pesqueirenses, levando-as até as escolas da rede municipal de ensino para inspirar as novas gerações e manter viva a chama do pesqueirismo como sentimento de pertencimento e amor à nossa terra.

Ser pesqueirista é muito mais do que ter nascido em Pesqueira; é ter por ela um amor devotado sendo seu filho por certidão ou adoção, é ter a certeza de que a partir dela amadureceu para a vida e teve seu espírito formado. Ser pesqueirista é ter enraizada dentro de si a alma de uma terra e de seu povo, representada em cada pedaço de chão pela história, pelo casario antigo, pela cultura, pelas artes, pela música, pelas letras e pelas tradições do povo Povo Xukuru.

Por fim, ser pesqueirista é acreditar na força do pesqueirismo como fonte de união entre todos que amam esta terra, para lutarmos pelo seu desenvolvimento, seja em qualquer área de atuação — educação, cultura, artes ou política — sem revanchismos de qualquer natureza, pondo de lado as divergências pelo bem maior, que é o soerguimento da nossa pátria querida, nossa terrinha Pesqueira.

 

Por Fábio Menino de Oliveira.

domingo, 26 de abril de 2026

PESQUEIRA DAS LETRAS: À LUZ DA PALAVRA DOS SEUS LITERATOS

 


Homenagem aos Literatos de Pesqueira


Excelentíssimas autoridades, queridos escritores, poetas, cronistas, jornalistas, pesquisadores e amantes da nossa cultura:


É impossível falar de Pesqueira sem reverenciar o peso da nossa história. Em 1917, o Cardeal Arcoverde nos batizou com um título que carregamos com orgulho e responsabilidade: somos a Atenas do Sertão. Esse não foi apenas um cumprimento diplomático; foi o reconhecimento de que este chão é, e sempre foi, um celeiro de intelectuais.

Nossa identidade foi forjada pela pena de gigantes. Recordamos aqui nomes como Zeferino Galvão, Anísio Galvão, José de Almeida Maciel, Luiz Cristóvão dos Santos, Luiz Neves e Djanira Silva. Eles não apenas escreveram livros; eles eternizaram nossa alma, nossas ruas e nossa gente.

Mas, o projeto Pesqueira das Letras nasceu de uma certeza fundamental: a literatura de Pesqueira não vive apenas no passado. Ela pulsa aqui e agora. E aproveito para registrar a confiança e o apoio do nosso secretário de educação Danilo Ramon, que tem permitido o desenvolvimento destes projetos nas escolas, voltamos não só a falar de Pesqueira, mas, daquilo que é o nosso maior patrimônio: sua gente, seu povo. 

E é no chão das unidades escolares que o pesqueirismo renasce no brilho do olhar e nas emoções expressas pelos literatos em cada homenagem prestada. Foi gratificante acompanhar momentos tão lindos compartilhados nas redes sociais. E fico a imaginar aquilo que só pôde ser sentido e não fotografado. 

Permitam-me um adendo sobre o pesqueirismo — sentimento de pertencimento e amor à Pesqueira —, conclamo a todos para não só celebrarmos os 146 anos de elevação à categoria de cidade. Nossa história é muito maior, nascemos do povo Xukuru e de Cimbres que se tornou município em 3 de abril de 1762, isto é, há 264 anos. Somos o mesmo município que transferiu sua sede em 1836, virou cidade em 1880 e mudou de nome em 1913, deixando de ser chamado de Cimbres e passando a ser Pesqueira. Por esta razão, entregamos no último dia 20 de abril ao prefeito e ao presidente da Câmara de Vereadores a proposta de criação da Data Magna do Município de Pesqueira intitulada Dia de Cimbres, como forma não de mudar a data de aniversário, contudo, de fazer uma reparação histórica reconhecendo a importância cimbrense como nossa “Terra Mãe”. Afinal, história e memória não se apagam, se reverenciam.

Pois bem, e nada melhor do que tratar deste assunto neste dia solene, onde homenageamos em nome da Secretaria de Educação — a geração contemporânea de literatos. Vocês são os herdeiros de uma tradição secular, mas trazem consigo a inovação, o olhar crítico e os afetos do tempo presente. Seja no cordel, na crônica, na poesia, no jornalismo ou na pesquisa histórica, vocês continuam a dar voz à nossa cidade, impedindo que o nosso patrimônio imaterial se perca no silêncio das estantes.

O nosso objetivo principal é, e será sempre construir uma ponte ligando passado, presente e futuro. Queremos que as crianças e jovens nas nossas escolas olhem para vocês e vejam neles mesmos o potencial de também serem escritores. Queremos que o sentimento de pertencimento floresça, para que cada estudante sinta orgulho de dizer que vive na cidade onde a palavra é sagrada. Valorizar o escritor local é garantir que a nossa memória não seja apagada pelo tempo. É democratizar o acesso à leitura e à escrita, tornando visível aquilo que muitas vezes fica guardado na intimidade da criação.

Aos nossos homenageados de hoje: o trabalho de vocês é a luz que ilumina o ontem e o amanhã de Pesqueira. Que este momento seja mais do que uma simples entrega de honraria; que seja a reafirmação de um compromisso coletivo com a nossa cultura. Como diz o projeto, estamos aqui para "iluminar a palavra dos literatos". E, através dessa luz, garantir que o legado da Atenas do Sertão continue a inspirar e a transformar vidas por muitas gerações.

Muito obrigado e parabéns a todos os nossos escritores!



Seminário São José, Pesqueira -PE, 24 de abril de 2026.

Por Fábio Menino de Oliveira



Flávio Jardim


Veríssimo Válter

Paulinho Muniz

Nilo Moraes

José Severino do Carmo
representado por Zuleide Siqueira

Francisco Aquino

Lourdes Marinho

Edmilton Torres representado
por Edmar Torres


Wágner Leal

Zezé Cordeiro

Genival Poeta


Átila Frazão

Givanildo Paes Galindo


Diosman Avelino


Válter Leal

João Capri

Ana Maria Cordeiro


Andréa Galvão em seu nome e por
Galba Macedo e Wálter Ramalho.


Zezé França


FOTOS: Assessoria de Comunicação da SME e da SICTEC.