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| Seminário São José em Pesqueira, s/d. Acervo desta página. |
Compareceu todo o clero desta Diocese — Presente o
Cônego Carlos Bacelar, representando a Arquidiocese e o Cabido Metropolitano de
São Luís do Maranhão. Como decorreram as solenidades — outras notas.
Conforme fora amplamente noticiado, realizou-se, na
última terça-feira, às 9h30, a solene inauguração do Seminário São José,
notável realização de S. Excia. Revma. D. Adalberto Sobral, fincado ao sopé do
Ororubá.
Na hora aprazada, os automóveis em corso conduziram
do Palácio Episcopal ao novo Seminário o Sr. Bispo Diocesano, o Cônego Carlos
Bacelar, autoridades civis e militares, vários sacerdotes, representantes do
Convento São Francisco, industriais, comerciantes e pessoas gradas. À frente do
estabelecimento em apreço achavam-se famílias, o Colégio Santa Doroteia, o
Ginásio Cristo Rei, alunos do Seminário, associações religiosas, representações
de outras cidades e o povo em geral.
À chegada do séquito, fogos estridularam no espaço
e a Banda de Música 11 de Setembro executou um dobrado, enquanto fremiam os
vivas e as palmas. No céu, um avião executava acrobacias, lançando flores sobre
o Seminário.
O Sr. Bispo alcança o pórtico e delega ao Cônego
Bacelar o corte da faixa simbólica. Em seguida, dirige-se S. Excia. Revma. à
capela, acompanhado de todo o clero, autoridades, famílias etc. Dali, segue
rumo ao claustro, realizando a bênção do novo estabelecimento. Seguem-no em
cortejo o clero, as autoridades e elementos das classes conservadoras. Todo o
prédio foi percorrido para efeito dessa cerimônia. Ouvem, em seguida, os
presentes os cantos dos alunos do Seminário, dirigindo-se, após, S. Excia.
Revma. e demais autoridades para o salão nobre. Nesse recinto, foi inaugurado o
retrato do Exmo. Sr. Bispo Diocesano. Usou da palavra o pároco desta freguesia,
Pe. Noval José de Oliveira, apresentando o Revdo. Luiz Madureira, orador
oficial. Em palavras candentes de entusiasmo e veneração, o orador comenta a
realização de S. Excia. Revma. D. Adalberto Sobral. Depois, lê o telegrama há
pouco recebido de Roma e assim redigido: “Cidade do Vaticano — Exmo. Monsenhor
Sobral — Pesqueira. O Sumo Pontífice gloriosamente reinante, por motivo da
inauguração do novo Seminário, envia a V. Excia. e à Diocese a bênção
apostólica, auspício de rica vida espiritual para o Seminário, bem como
propiciatórias graças celestes extensivas aos superiores, alunos e benfeitores.
Montini — Secretário Substituto”.
Palmas ecoaram no espaço e, de todas as
fisionomias, brotaram sorrisos de intenso júbilo. Depois, foi lida pelo Pe.
Madureira a ata, recebendo a assinatura do Sr. Bispo Diocesano, das autoridades
e demais presentes.
Terminada a cerimônia, realizou-se uma manifestação
ao Exmo. Sr. Bispo no auditório, usando da palavra o Pe. Augusto de Carvalho, reitor
do Seminário, sendo muito aplaudido. Ouve-se o órgão do Colégio Santa Doroteia.
A seguir, usaram da palavra um aluno do novo Seminário e um seminarista da
Diocese, estudante do estabelecimento congênere de Olinda. O orfeão do novo
Seminário executa um harmonioso número. Em seguida, discursam o Pe. Hermano
Hans, autor da planta do prédio recém-inaugurado; o inteligente e culto
maranhense Cônego Bacelar; e, finalmente, o Sr. Bispo D. Adalberto Sobral,
cujas palavras transcrevemos a seguir:
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Fotografia do
livreto em homenagem a D. Adalberto Sobral,
Bispo de Pesqueira, nas suas Bodas
de Prata de Sacerdócio, 1936.
Revmos. Padres, Exmas. Autoridades, Digníssimas
Senhoras, Meus Senhores:
Grandes são as emoções de nossa alma neste
instante. Ao acontecimento marcante na vida da Diocese de Pesqueira, que é a
inauguração de seu novo Seminário, quisestes juntar, meus queridos Padres, esta
homenagem tão carinhosa ao vosso Bispo de ontem, irmão e amigo de sempre. Homenagem
cujo merecimento deixamos aos eternos juízos de Deus e na qual vemos mais uma
prova do vosso bem-formado espírito sacerdotal e de vossa comprovada fidalguia.
Soldados sempre prontos na obediência e no cumprimento do dever, incansáveis no
zelo, edificantes no espírito de piedade, insuperáveis no sacrifício e na
renúncia, nós vos encontramos sempre colaboradores decididos do nosso múnus
pastoral, nesse ingente trabalho pelo bem espiritual de nossa amada Diocese,
durante os treze anos de nossa permanência nos sertões queridos do glorioso
Pernambuco.
Não é agora o momento de vos darmos o nosso adeus,
de vos apresentarmos nossas despedidas; estas se encontram expressas nas modestas
linhas de nossa carta pastoral e, mais que isso, impressas indelevelmente nos
íntimos refolhos de nosso coração. É, porém, a hora do agradecimento, e este
queremos fazê-lo em público, neste momento culminante da vida da Diocese, para
que todos o recebam como solene testemunho da estima que vos dedicamos. Vosso
gesto, tão nobre quanto comovente, fica impresso em nossa alma com as tintas
inapagáveis da verdadeira estima e do sincero reconhecimento; gesto tanto mais
cativante quanto, para levá-lo a efeito, escolhestes esta memorável hora que
estamos vivendo.
Senhores, o término desta empresa, que alguém
chamou arrojada e audaciosa para os sertões, é uma prova irrefragável da
assistência divina à pobre criatura. Com o coração cheio de apreensões, mas com
a alma inundada de confiança, aos pés da Padroeira do Brasil, em Aparecida,
anunciamos o desejo de dotar nossa querida Diocese com um Seminário à altura de
suas altas finalidades e satisfazendo às exigências da moderna pedagogia. Naquele
inesquecível 21 de novembro de 1944, aniversário de nossa primeira missa e data
natalícia do saudoso D. José Lopes, lançávamos a primeira pedra do edifício.
Desde então, foi uma constante porfia, um continuado estímulo de todos os
lados, parecendo mesmo que a Misericórdia Divina havia desafiado a nossa
capacidade, pois a cada esforço do Prelado, a cada sacrifício dos Padres, a
cada prece dos fiéis, correspondia à bondade de amigos com óbolos de vulto,
dádivas generosas que nos permitiam ir satisfazendo, com a máxima regularidade,
os compromissos assumidos com a construção. Venceu a Misericórdia Divina, pois
somente o seu poderoso auxílio, a sua assistência eficaz, nos permitiu levar a
cabo obra de tal valor.
Felizes na escolha do local da construção, felizes
no traçado da planta entregue ao renomado arquiteto Pe. Hermano Halm, traçado
que mereceu os maiores encômios de engenheiros de Pernambuco e do sul do país,
tivemos ainda o cuidado de confiar a execução dos trabalhos ao conceituado
engenheiro Dr. J. B. Toni, que nos foi apresentado por um dedicado amigo, o
Revmo. Frei Pedro, Provincial dos Padres Franciscanos.
Quando o engenheiro construtor, por ter sua
residência em Campina Grande, não pôde dar contínua assistência aos trabalhos,
veio em auxílio da construção o Revmo. Pe. Antônio Duarte. Renunciando à
paróquia, o Pe. Duarte dedicou-se de corpo e alma aos trabalhos, sem medir
canseiras, sem olhar sacrifícios. Horas a fio, absorvido nos vários problemas
que surgiam, no alto dos andaimes ou à mesa do escritório, examinando aqui,
observando acolá, esquecido de quaisquer comodidades, sacrificou até a saúde
com o único interesse de levar a obra a bom termo e colaborar do melhor modo
para esta esplêndida vitória que hoje se inscreve nos anais da Diocese de
Pesqueira. Neste momento, é mais que justo seja o nome do Pe. Duarte alvo de
especial menção, pois o Prelado e a Diocese lhe são devedores de imensa soma de
reconhecimento.
Impossível seria declinar um por um os nomes
daqueles que auxiliaram com donativos a realização desta empresa. Precisaríamos
de horas para desfiar as contas deste verdadeiro rosário de gratidão;
preferimos, pois, entregar ao Supremo Remunerador de todos os bens a tarefa de
levar a cada um, em bênçãos escolhidas, a manifestação de nosso reconhecimento
e a recompensa de sua generosidade. Mas não pode calar a nossa consciência o
dever de um registro, a menção de um nome: o de Manuel de Brito. Todos já sabem
que a sua contribuição de duzentos mil cruzeiros foi a maior que recebemos.
Entretanto, por mais significativo que seja esse gesto, não se pode compará-lo,
em espécie e nos seus efeitos, ao apoio moral e à dedicação sem limites de que
Manuel Brito nos cercou em todos os momentos. Ligado ao nosso coração por laços
de uma estima que muito nos honra e que Deus abençoe, sentimos em todos os
instantes o conforto de sua solidariedade incondicional. Chefe de uma poderosa
organização industrial, ele abriu as comportas de sua generosidade, colocando
às nossas ordens meios de transporte e outros recursos técnicos de que dispõe a
Fábrica Peixe. E foi tal a sua dedicação que, em breve, sentíamos bem ao vivo
os efeitos de seu contagiante entusiasmo por esta realização. Desde os
diretores e gerentes aos demais auxiliares imediatos, desde o chefe de oficinas
ao modesto e anônimo ajudante de caminhão da fábrica, todos, sem exceção,
demonstraram o máximo zelo e interesse por tudo quanto dizia respeito à
construção do novo Seminário. Se fora possível fazer falar este edifício, desde
o alicerce até o campanário que domina toda a construção, diriam eles da
colaboração de Manuel Brito para a realização desta obra. Fala, porém, o
humilde Bispo, que agradece comovido seu cativante e decidido apoio e inscreve
o seu nome nos fundamentos desta casa, como seu maior benfeitor, inscrito já o
foi, desde há muito, em nosso coração como um dos melhores amigos.
Senhores, as alegrias que meu espírito experimenta
nesta hora têm um misto de pungente saudade. Dizem, com razão, que o pensamento
da morte se torna mais familiar àqueles que, na expressão de um escritor,
“começam a descer a encosta ocidental da montanha da vida”. Não nos pudemos
também nós furtar à lei, a esta espécie de sombra que se projeta sobre o nosso
coração no ocaso da existência. Fomos agraciados com o singular privilégio de
ser bispo em Pernambuco, vivendo no meio de uma heroica gente, cuja bravura e
cujo heroísmo douram as páginas da nossa história. Tivemos como sede episcopal
esta progressista cidade, cujo povo se distingue pelo seu admirável espírito
religioso e pela nobreza de seus sentimentos. Por demais contentes com tais
favores da munificência divina, já divisávamos pela imaginação a nesga de terra
onde deveriam repousar nossos despojos, felizes porque encerrados no solo
pernambucano e cobertos pela abóbada azul deste incomparável céu brasileiro. Diríamos,
talvez, que a Providência nos traiu em nossos anseios quando, assoberbados,
recebemos a notícia da nossa transferência para o sólio arquiepiscopal do
Maranhão. O voto de obediência nos leva para longe deste povo; seguimos para o
novo posto com a mesma confiança e com as mesmas disposições de consumir nossas
derradeiras energias pela glória de Deus e pelo triunfo desta Igreja a quem
juramos servir. Irá conosco, porém, indelevelmente gravada em nosso coração, a
Diocese de Pesqueira e, com ela, o seu zeloso clero e a sua boa gente, presos
todos pelos laços da mais lídima estima, laços que a distância e o tempo só
farão apertar ainda mais.
Agradecemos a presença das Exmas. autoridades a
esta cerimônia, confortando-nos com a sua solidariedade e partilhando das
nossas alegrias.
Fazemos extensivo este agradecimento ao Revmo.
Clero, às representações de classe, às associações religiosas e ao povo em
geral.
Agradecemos aos representantes da imprensa a sua
presença a este ato e queremos salientar quão grato é para nós vê-los aqui
neste momento. Encarregados de transmitir ao povo a verdade, irão certamente
dizer que Deus operou, com esta construção, um milagre nestes benditos sertões.

Cônego Carlos Bacelar. Foto Jornal do
Maranhão, 27/07/1961.
Registramos com carinho a presença de um
representante da veneranda Arquidiocese do Maranhão, o Revmo. Cônego Bacelar.
Deixando os rincões longínquos de São Luís para vir aos sertões queridos de
Pernambuco, traz-nos S. Revma., com este gesto, o amplexo filial do novo
rebanho que Nosso Senhor nos confiou. Diga o Cônego Bacelar à Arquidiocese de
São Luís quanto ficamos honrados e reconhecidos por essa fidalga prova de
consideração que nos foi proporcionada.
E aqui terminamos, meus senhores, invocando para
todos vós a bênção divina, único e seguro penhor da verdadeira felicidade.
A
Voz de Pesqueira, ano X, nº 35, edição de 15 de junho de 1947.
***
NOTA DO
EDITOR:
No dia 10 de junho de 1947,
Pesqueira viveu uma das mais significativas celebrações de sua história
religiosa e educacional com a inauguração do Seminário São José. A solenidade,
registrada em detalhes pelo jornal A Voz
de Pesqueira em sua edição de 15 de junho de 1947, reuniu todo o clero da
Diocese, autoridades civis e militares, representantes de diversas instituições
e uma multidão de fiéis que acorreu ao sopé da Serra do Ororubá para
testemunhar a concretização de um antigo sonho de Dom Adalberto Accioly Sobral.
A chegada do bispo e das autoridades
ao novo edifício foi marcada por grande entusiasmo popular. Fogos de artifício,
apresentações da Banda de Música 11 de Setembro e até mesmo um avião que lançou
flores sobre o seminário deram um tom festivo à cerimônia. Após o corte da
faixa inaugural pelo Cônego Carlos Bacelar, representante da Arquidiocese de
São Luís do Maranhão, seguiram-se a bênção das instalações, homenagens e
discursos que exaltaram o significado da nova instituição para a Diocese de
Pesqueira.
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Seminário São José, s/d. Acervo desta página.
Embora a reportagem original de A
Voz de Pesqueira não tenha sido publicada com fotografias, esta edição
incorpora imagens históricas do Seminário São José como complemento documental,
permitindo ao leitor visualizar o edifício e alguns aspectos de sua trajetória.
As fotografias aqui reproduzidas contribuem para enriquecer a compreensão do
acontecimento e preservar a memória de uma das mais importantes realizações
religiosas, educacionais e arquitetônicas da história de Pesqueira.
Em seu pronunciamento, Dom Adalberto
Sobral relembrou os desafios enfrentados desde o lançamento da pedra
fundamental, em 21 de novembro de 1944, agradecendo aos sacerdotes, benfeitores
e colaboradores que contribuíram para a realização da obra. Entre os
homenageados destacou-se o Pe. Antônio Duarte, cuja dedicação foi fundamental
para o acompanhamento dos trabalhos de construção.
A emoção daquele momento também
foi traduzida em poesia. Durante as festividades de inauguração, o Pe. Antônio
Duarte recitou o soneto “Seminário São José”, uma bela homenagem ao novo
estabelecimento de ensino e formação sacerdotal:
SEMINÁRIO SÃO JOSÉ
Ao pé da Ororubá, no topo de um outeiro,
Garboso como um rei, num trono de brilhante,
O grande Seminário, encantador, gigante,
Vai surgindo risonho, esbelto e prazenteiro.
Subirá com nobreza o píncaro altaneiro
Para ser no porvir um astro fulgurante,
Um cenáculo de Deus! Sacrário flamejante
Dos levitas do Céu, do Cristo verdadeiro.
Será futuramente um marco assinalado,
Um pedestal de luz na vida de um Prelado,
O grande Seminário imerso, colossal!
Num preito carinhoso, em voz alvissareira
Cantará para sempre as glórias de Pesqueira,
Louvando e bendizendo: — Bispo Dom Sobral.
O soneto
sintetiza o sentimento de orgulho e esperança que envolveu a inauguração do
Seminário São José. Erguido em posição privilegiada aos pés da Serra do
Ororubá, o edifício era visto como um símbolo de progresso espiritual e
educacional, destinado a formar gerações de sacerdotes para servir à Igreja e à
sociedade.
Passadas
décadas, a reportagem de A Voz de
Pesqueira e os versos de Pe. Antônio Duarte permanecem como preciosos
registros históricos de um dos acontecimentos mais marcantes da trajetória da
Diocese e da cidade de Pesqueira, celebrando a fé, a perseverança e o legado de
Dom Adalberto Sobral.
Por Fábio
Menino de Oliveira


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