domingo, 21 de junho de 2026

DE DR. LÍDIO PARAÍBA A DOM VITAL: OS 101 ANOS DA INAUGURAÇÃO DE UMA ESCOLA MUNICIPAL

 

Foto do Álbum da Administração Cândido de Brito.

A administração do prefeito Cândido Cavalcanti de Brito (1923-1925) realizou importantes investimentos na área da educação no município de Pesqueira. Para se ter uma ideia, no último trimestre de 1923, a prefeitura destinou à instrução pública o valor de 2:946$940; já no ano seguinte, o montante total investido passou para 16:574$420. Entre as ações realizadas com esses recursos estava a construção dos grupos escolares municipais.

Um desses grupos escolares recebeu o nome de Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba, em justa homenagem ao ilustre esculápio gaúcho que adotou Pesqueira como sua terra e, por décadas, cuidou de sua população — a mesma gente que lhe dedicava respeito, admiração e reconhecimento pelo seu trabalho e por suas qualidades humanas.

De acordo com informações obtidas nos periódicos Diário de Pernambuco e A Província (23/06/1925) a Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba foi inaugurada no sábado, 21 de junho de 1925, às 18h30. Estiveram presentes ao ato solene o Dr. Sérgio Loreto, governador de Pernambuco; Dr. Aníbal Fernandes, secretário de Justiça e Instrução Pública; Dr. Samuel Hardman, secretário da Agricultura; cônego Henrique Xavier, presidente da Câmara dos Deputados Estaduais, acompanhado de seus pares, os deputados Fraga Rocha, Bezerra Filho, Jorge Correia de Araújo e Anísio Galvão; Cândido de Brito, prefeito de Pesqueira; e o homenageado, Dr. Lídio Paraíba. Além deles, participaram outras autoridades, auxiliares e jornalistas que integravam a comitiva governamental.

Discursaram na ocasião o jornalista e deputado Anísio Galvão, em nome do prefeito Cândido de Brito, e o Dr. Lídio Paraíba, que agradeceu a honraria de ter sido escolhido como patrono do novo educandário municipal. Por último, usou da palavra a primeira professora da escola, a senhorita Severina Duque, que proferiu um breve, porém belo discurso, alusivo à solenidade.

Com relação à arquitetura do prédio recém-inaugurado a mesma era simétrica e refinada, típica de construções institucionais do interior brasileiro no início do século XX com influências do estilo eclético simplificado, coroada por um vistoso telhado de quatro águas em telhas coloniais e cornija saliente. Sua fachada exibia a inscrição pintada com o nome do estabelecimento de ensino logo abaixo do beiral e contava com um mastro vertical centralizado para o hasteamento da bandeira. A imponente porta central de madeira almofadada e as duas janelas retangulares laterais eram preenchidas por elegantes caixilhos quadriculados de vidro, sendo todas as aberturas emolduradas por detalhadas sobrevergas decorativas e mísulas em relevo que conferiam ao edifício público um forte senso de ordem, dignidade e permanência.

Vale salientar que, na mesma data, foram inaugurados em Pesqueira o Grupo Escolar Virgínia Loreto (atual Ruy Barbosa) e o Açougue Municipal. No dia seguinte, a comitiva dirigiu-se ao então distrito de Rio Branco, atual Arcoverde, onde inaugurou o Grupo Escolar Dr. Loreto Filho.

O grupo escolar com a inscrição na fachada Escola Municipal Dom Vital.
Foto do acervo de Marcelo O. Nascimento, 2012.

Pois bem, as únicas informações disponíveis sobre o funcionamento da Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba são aquelas referentes à sua inauguração. Sabe-se que o nome do patrono do grupo escolar foi alterado em data ainda não localizada, devido à escassez de fontes documentais, passando a denominar-se Escola Municipal Dom Vital, nomenclatura que já existia em 1953, conforme consta no Diário Oficial do Estado, edição de 27/05/1953, que registra a nomeação, pela Divisão de Ensino Profissional Rural e Supletivo, da professora Estelita Leite de Mendonça para continuar lecionando o ensino supletivo na Escola Municipal Dom Vital, localizada na sede do município de Pesqueira.

Ao que consta, a Escola Municipal Dom Vital permaneceu ativa até 1979, quando encerrou suas atividades como educandário. Laurene Martins, em sua coluna Sempre aos Domingos, publicada no jornal Nova Era, edição de 27/01/1980, assim escreveu:

ESCOLA MUNICIPAL DOM VITAL. O Ano Internacional da Criança aqui em Pesqueira terminou com o fechamento de uma escola que servia para o aprimoramento da própria criança. Trata-se da Escola Municipal Dom Vital localizada à Praça Manoel Caetano de Brito, que agora é sede do Ciretran, numa prova talvez de que o DETRAN-PE vive na miséria e não pode construir um prédio aqui em Pesqueira. Nem mesmo alugar. Será que as taxas cobradas, são insignificantes? Tem água neste chope.                                                            

Com isso, após 54 anos de atividades como escola, o prédio tornou-se sede da CIRETRAN de Pesqueira, permanecendo naquela edificação por alguns anos. Posteriormente, não se sabe ao certo para quais finalidades o imóvel foi utilizado. É certo, contudo, que também serviu como sede da Pastoral da Criança e que, em meados de 2010, a Prefeitura de Pesqueira fez a cessão do espaço para a Associação Cultural Vivarte, tendo à frente Josinaldo Oliveira, Hercílio Torres e Carlos Henrique Romeu Cabral (in memoriam).

Vivarte em 2017.

A Vivarte promoveu a reforma do prédio, que se encontrava em estado de abandono, e iniciou suas atividades culturais por meio do teatro, do cineclubismo e de produções carnavalescas. Contudo, as atividades precisaram ser suspensas em razão de problemas estruturais, sobretudo relacionados ao telhado da edificação.

Ao completar 101 anos de existência, o antigo prédio da Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba, posteriormente denominada Escola Municipal Dom Vital, permanece como um importante testemunho da história educacional e cultural de Pesqueira. Suas paredes guardam as memórias de gerações que ali tiveram acesso ao conhecimento, à formação cidadã e às primeiras experiências no universo do saber, cumprindo, durante décadas, o propósito maior para o qual foi construído: ser um espaço dedicado à educação.

Hoje, ressignificado como sede da Associação Cultural Vivarte, o imóvel passando por uma reforma, continuará exercendo uma função social de grande relevância como espaço de valorização da cultura, das artes e da memória coletiva. A preservação e a recuperação de sua estrutura representam não apenas a restauração de um patrimônio arquitetônico centenário, mas também a continuidade de uma missão iniciada em 1925: promover conhecimento, formação e transformação social.

Vivarte em 2018.

Em síntese, desejamos que aja o apoio e o incentivo do poder público a Vivarte para que seja feita com urgência a reforma desse prédio histórico com vistas a garantir sua permanência como um verdadeiro Centro de Cultura e do Saber, unindo passado e presente, educação e arte, memória e futuro. Assim, o antigo grupo escolar seguirá vivo, acolhendo novas gerações e reafirmando sua importância como um dos espaços simbólicos da identidade cultural de Pesqueira.

Por Fábio Menino de Oliveira.

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