quinta-feira, 18 de junho de 2026

NOS TRILHOS DO PROGRESSO: A GAZETA DE PESQUEIRA COMO PORTA-VOZ DA INAUGURAÇÃO DA FERROVIA EM 1907

Estação de Pesqueira na década de 1920. Foto de José Severiano Netto
publicada no livro Pesqueira Secular (1980).

As edições da Gazeta de Pesqueira publicadas entre janeiro e maio de 1907 permitem acompanhar, quase em tempo real, a expectativa da população diante da chegada da estrada de ferro à cidade. As notícias revelam entusiasmo, cobranças e até críticas à empresa responsável pelo serviço ferroviário, constituindo um importante registro da implantação de um dos maiores símbolos do progresso no interior pernambucano.

Na edição nº 53, de 13 de janeiro de 1907, o jornal registrava a chegada dos trilhos à Pesqueira vindos de Sanharó, cuja estação foi inaugurada em 1º de novembro de 1906: “O assentamento de trilhos de Sanharó a esta cidade acaba de chegar á nossa estação da via férrea, e não há quem não se entusiasme ouvindo os silvos da ruidosa catita, que ao mesmo tempo despeja para o espaço baforadas de fumo. É lastima que a inauguração só se realize em Março, conforme dizem os competentes. Com o progresso regozijai!”

Entretanto, a inauguração ocorreria antes do previsto. Em aviso oficial publicado pela The Great Western of Brazil Railway Company Limited, datado de 4 de fevereiro de 1907, a companhia anunciou a abertura da estação de Pesqueira ao tráfego provisório: “Na quarta-feira próxima, 6 do corrente mês, será aberta a Estação de Pesqueira ao tráfego provisório para passageiros, bagagens e mercadorias. Nas segundas, quartas e sextas-feiras um trem misto partirá às 4h35 da tarde de Sanharó chegando em Pesqueira às 5h15, voltando nas terças e quintas-feiras às 5h35 da manhã, chegando em Sanharó às 6h15 e nos sábados partindo de Pesqueira às 7h35 da manhã chegando em Sanharó às 8h15. Estes trens correrão nestes dias em combinação com os trens mistos entre Recife e Sanharó, não havendo alteração alguma no horário atual dos trens mistos entre Recife e Sanharó. Recife, 4 de fevereiro de 1907. J. A. Lorimer, Gerente-interino.”

O comunicado estabelecia ainda os primeiros horários de circulação dos trens entre Sanharó e Pesqueira, marcando oficialmente a entrada da cidade na rede ferroviária pernambucana. Dessa forma, 6 de fevereiro de 1907 pode ser considerada a data de inauguração operacional da estação ferroviária de Pesqueira.

Bilhete postal para o presidente Afonso Pena informando a inauguração
do tráfego da Ferrovia de Pesqueira, 11.2.1907.

A efetiva abertura da linha é corroborada por documentação preservada no arquivo do então presidente da república, Afonso Pena. Entre os documentos encontra-se um bilhete postal enviado por Luís Gomes, de Petrópolis, em 11 de fevereiro de 1907, contendo uma saudação pela inauguração do tráfego de Pesqueira. A mensagem, registrada apenas cinco dias após a data anunciada pela Great Western, demonstra que a notícia da abertura da estação e do início das operações ferroviárias já circulava pelo país, confirmando que o tráfego provisório encontrava-se em funcionamento nos primeiros dias de fevereiro de 1907.

Pouco depois, a Gazeta em sua edição nº 60, de 3 de março de 1907, anunciava a expectativa de ampliação do serviço: “Estamos informados que do dia 5 em diante serão diários os trens do Recife a esta cidade e vice-versa.”

Por sua vez, na edição nº 66, de 14 de abril de 1907, a ferrovia já era tratada como uma realidade consolidada: “No dia 18 será aberto definitivamente o trafego da via-férrea até esta cidade e vice-versa para o Recife, sendo diários, dessa data em diante, os trens.” A mesma notícia registra um problema que acompanhava a chegada das composições: “A molecagem continua desenfreada e invade os carros que chegam á estação. Polícia com eles.”

Gazeta de Pesqueira, 14.4.1907

Entretanto, a expectativa de trens diários logo deu lugar à insatisfação. Na edição nº 68, de 28 de abril de 1907, a Gazeta publicou o horário oficial expedido pela Great Western e protestou contra a limitação do serviço: “Conforme se verifica do edital expedido pela Great Western, os trens chegarão nesta cidade às 4 horas e 50 minutos da tarde nas segundas, quartas e sextas, e partirão para o Recife às 6 horas da manhã nas terças e quintas, e às 8 horas todos os sábados.”

Em seguida, o periódico questionava: “Assim sendo, e não os trens diários, que vantagens obtivemos nós? Então uma cidade como esta continua inferior a todas as outras localidades?” O tom crítico prosseguia com uma defesa dos interesses da região sertaneja: “Transformaremos em baluarte as colunas deste periódico, que tem a necessária independência, e é o legitimo representante de toda a zona sertaneja.”

Finalmente, a edição nº 70, de 12 de maio de 1907, informava uma nova alteração nos horários: “Desde o dia 7 que temos trens diários, e de acordo com o edital da Great Western obedecem ao seguinte horário: terças, quintas e sábados, chegarão nesta cidade às 5 horas e 30 minutos da tarde; segundas, quartas e sextas, partirão para o Recife às 7 horas da manhã.”

            Assim, a documentação disponível permite afirmar que a chegada da ferrovia a Pesqueira ocorreu em duas etapas distintas: a abertura provisória ao tráfego de passageiros, bagagens e mercadorias em 6 de fevereiro de 1907, conforme o aviso da Great Western, e a abertura definitiva da linha, anunciada pela Gazeta de Pesqueira para o dia 18 de abril de 1907, quando os serviços passaram a operar de forma regular e com maior integração à malha ferroviária do Estado.

           Por fim, esses registros demonstram a importância da chegada da ferrovia para Pesqueira e evidenciam o papel da Gazeta de Pesqueira como porta-voz das expectativas, reivindicações e aspirações da população local diante de uma das maiores transformações urbanas, econômicas e sociais do início do século XX. Entre o entusiasmo pelos primeiros silvos da locomotiva e as cobranças por melhores horários e maior frequência de viagens, o periódico documentou a inserção de Pesqueira nos trilhos do progresso e da modernidade, tornando-se uma fonte indispensável para a compreensão desse marco histórico da cidade.


 Por Fábio Menino de Oliveira


Nenhum comentário:

Postar um comentário