domingo, 30 de agosto de 2026

A APARIÇÃO NO SÍTIO GUARDA: O IMPRESSIONANTE RELATO DE LUIZ NEVES

 


A aparição de Nossa Senhora da Luz, no Sítio Guarda, em Cimbres, Distrito de Pesqueira

​Milagre ou coincidência?... estranha ocorrência aconteceu com o repórter


Eu nunca fui de acreditar em milagres, não. Não que eu seja um cético. Até que em outubro de 1985 aconteceu comigo um fato que me livrou de morrer dentro da própria casa de minha filha, onde costumeiramente me hospedo, quando aqui estou; o que me livrou das dúvidas que mantinha sobre a ocorrência de fatos sobrenaturais.

​Sobre o que vou narrar, e existe muita gente na minha rua que poderá atestar minhas declarações, vou contar tim-tim-por-tim-tim como aconteceu e tem ligação com a aparição de Nossa Senhora da Luz, no Sítio Guarda, em Cimbres. Vocês é que irão deduzir, depois da leitura do meu depoimento, se se trata de milagre ou coincidência.

O PRESENTE DA NORA

Minha norinha, que se chama Neyde, muito enlevada em fé e em milagres, sabendo das minhas andanças, com um currículo nada abrandador no que se refere a desastres de automóveis – já levei duas "viradas", em 30 anos de política e 40 de jornalismo! pois já fraturei quatro costelas, concussão da bacia, pancada [trecho ilegível/rasurado], deslocamento de um pé e "outras cositas mas"; isto no primeiro acidente automobilístico que aconteceu aqui mesmo, entre Pesqueira e a Vila de Ipanema, no dia 28 de dezembro de 1967, acabando internado no hospital desta cidade, "Dr. Lídio Paraíba", onde fui assistido pelos médicos Jurandir Alves de Melo e Genivaldo Jatobá, na época, prestes a se formar. A segunda "virada" ocorreu na periferia de Vitória de Santo Antão, mesmo em frente ao posto de gasolina, exatamente à altura da via que dá acesso à cidade de Glória do Goitá e tive como companheiro nesse desastre meu amigo e companheiro de campanhas políticas, de saudosa memória, vereador Juracy Bezerra Cavalcanti, falecido em outubro de 1972, tão precocemente. Tal fato se deu, também, em dezembro de 1971, na passagem do ano, depois de duas santas noites de comemorações, bebemorando tal data, quando inventei de levantar acampamento, às cinco da madrugada, numa ressaca dos diabos, para visitar a mulher e os filhos em Olinda; na ocasião era o prefeito local, no segundo mandato. Pois bem, não deu outra: para não colidir com um tremendo "Scania" que saía da estrada de Glória, não tive outra opção; desenvolvendo uns 80 quilômetros, puxei para o acostamento... a "rural" que conduzia deu cinco cambalhotas para ficar paradinha num valado de canas-de-açúcar. Eu e meu companheiro Jura, terminamos no hospital de Vitória, socorridos que fomos pelo Dr. Ayrton Maciel, de Belo Jardim. Por incrível que pareça nada de grave aconteceu comigo e com o companheiro, somente escoriações.

Minha nora Neyde impressionada, depois deste último ​desastre, me deu de presente uma medalhinha em que aparecia uma santa e que ela, com todo respeito e convicção, me afirmou:

"Olhe, painho (é como me trata), use sempre essa medalhinha que é de Nossa Senhora da Luz, de muitos poderes, para proteger sempre o senhor".

Olhei para a medalhinha, sem demonstrar meu ceticismo a respeito de milagres, mesmo porque jamais iria desgostar minha primeira norinha (é casada com o filho mais velho, o Walter), examinando-a: era a efígie de uma senhora em cuja cabeça, além do halo, era toda rodeada de estrelinhas.

Para que conversar muito? Achei o presente muito interessante e a Neyde me fez guardar a medalhinha numa das seções da minha carteira de cédulas, tornando o seu presente inseparável, convindo afirmar que a partir desse momento, nunca mais me aconteceu desastres, a não ser o fato a que vou me reportar no decorrer deste depoimento.

O CONVITE DO VEREADOR RAIMUNDO DE ZÉ NOVO

Tenho por hábito, logo após o almoço, pois geralmente me acordo às 2/3 horas da madrugada, escrevendo, lendo ou estudando, e assim, pôr em dia o déficit de sono; o que nunca me fez mal. Muito pelo contrário, como vocês irão deduzir.

Pois bem, num sábado de setembro de 1985, eu estava mesmo disposto a tirar minha gostosa deforeta. Estava com o amigo, vereador Raimundo Bezerra, em sua casa, programando os meios de ação para impulsionar a candidatura a deputado estadual do conterrâneo Juracy Barbosa “Dúi” (posteriormente Dúi desistiu em favor do atual deputado Fausto Freitas), quando Raimundo me contou que tinha uma propriedade no Sítio Cajueiro, bem pertinho do Sítio Guarda, onde certa vez apareceu uma Santa, Nossa Senhora da Luz, às duas garotas, nos idos de 1936. Eu era um garoto de nove anos, mas me lembro do rebuliço que o caso provocou nos meios católicos da terra e no Estado. E, ipso facto, instintivamente, lembrei-me logo da medalhinha que Neyde me dera de presente, e outra coincidência que me acontecera 8 meses antes.

Um dos meus filhos, ex-candidato a monge carmelita, que se rendeu ao "ajeitamento" de uma tremenda e bonita galega da mesma altura dele, um metro e 74, advogado e bancário (Waldilson Neves), pesqueirense da gema e que me deu um neto, o André, que é exatamente um xeroque de sua mãe, ao tocar no assunto do aparecimento da santa, em Cimbres, com ele, qual não foi a minha surpresa quando o Didi (seu apelido) me confessou que seu jovem amigo de infância, colega do grupo escolar e do Cristo Rei locais, o atual arquiteto Aprígio Gusmão, filho do já falecido Luiz Gusmão, lhe entregara um "diário" escrito, num caderno escolar, em que a irmã Adélia, a garotinha na época que vira a Santa, fazia suas confissões a respeito do assunto que tanto impressionara, quando eu era um garoto, também chamada por batismo de Maria da Luz exatamente a medalhinha que jamais me soltara da carteira de cédulas. 

​— Continua no próximo número abril —

Na edição anterior dizia eu como consegui o "diário" de Maria da Luz, (atualmente irmã Adélia), através de um filho, o Didi (Waldilson Neves) que, por sua vez, o me recebera das mãos do seu amigo, o arquiteto Aprígio Gusmão, e uma medalhinha que me dera a nora Neide, para me proteger de uma série de "viradas" de carro de que fui vítima, anteriormente, por sinal de N.S. da Luz, exatamente o nome da mocinha do Sítio Guarda – Cimbres, que com a companheira Conceição, em 6 de agosto de 1936, tinham visto –, num lugar de difícil acesso, Nossa Senhora, o que causou um reboliço que já se viu!, na época, aqui em Pesqueira.

Segundo Aprígio Gusmão, meu filho era a pessoa indicada para estudar o tal "diário", advogado, redator aceitável, bem como pesquisar e escrever sobre o assunto. Curioso como sou, pedi o caderninho ao filho que não se fez de rogado e me presenteou. Li, reli, trili, sem acreditar – que Deus me perdoe! – naquelas ocorrências. Como frisei na reportagem anterior, disse para o vereador Raimundo Bezerra, atual presidente da Câmara Municipal desta terra, que desejava, naquela manhã de sábado, 5 de outubro de 1985, ir com ele até o sítio de sua propriedade situado nas proximidades do povoado de Cajueiro, onde se descortina, vis-à-vis, o despenhadeiro, a gruta do Sítio Guarda, onde os acontecimentos da aparição tiveram lugar.

– "Compadre (é a maneira dele falar) o convite tá feito. Hoje é dia de pagamento do meu pessoal lá em nosso sítio... Aproveite a "rebordosa" comigo num tem "camuflage" e... vamos lá".

Disse ao amigo Raimundo que antes, porém, teria de avisar minha filha Valdleusa que o nosso clã, na intimidade a chama de "Leleu" (esposa de Zê Uhênio, da serraria) e que trabalha no cartório da minha irmã Lia –, que naquela tarde não haveria o meu costumeiro "dormitaço", pois iria à Vila de Cimbres.

– "Papai, tenha cuidado, pois o senhor sabe, a estrada de Cimbres tem muitas curvas perigosas", – advertiu-me ela.

Com o edil Raimundo de Zé Novo, em demanda do Sítio Cajueiro, andei, virei, mexi, sem me lembrar de minha adorada e costumeira madorna pós almoço; pois fazia um bando de dias que eu estava com a ideia fixa da aparição da santa, incubada na cabeça e sabendo que o companheiro Raimundo era gente legal, fui com ele.

 ANTES, PORÉM…

Devo contar que ao aceitar o tal convite, por duas vezes viera a Pesqueira, aparelhado de máquina fotográfica, gravador, preparado para fazer uma reportagem "in loco” sobre a aparição de N. Senhora, no Sítio Guarda. Embora de carro, não sei explicar porque não fui. Havia sempre algo a me impedir de cumprir a missão que eu, voluntariamente, me impusera. E da vez que me encontrava completamente desaparelhado como repórter, vi-me na contingência de aceitar o convite de Raimundo Bezerra -, mas era para fazer política, na ocasião, em torno do nosso candidato a deputado estadual Juracy Barbosa (Dui), que desistiu em favor de Fausto Freitas.

​E quem é essa menina Maria da Luz e sua companheira Conceição que viram, em 1936, a aparição de N. Senhora? Na reportagem anterior já falei do estardalhaço que a "visão" de que foram protagonistas aquelas duas garotas, tinha causado na cidade de Pesqueira e do "reboliço" que dom Adalberto Sobral fez, nos meios católicos, para que todo mundo ficasse "quietinho", 'caladinhos... senão o tenente Urtiga (?), Delegado de Polícia, prendia na hora, evitando, assim, mistificações.

O CADERNINHO DE NOTAS DA IRMÃ ADÉLIA (Maria da Luz)

Maria da Luz, já no convento (Damas Cristãs – Recife) escreveu num caderno escolar uma espécie de memórias esparsas, do ocorrido. É bom frisar que a atual religiosa, quando entrou no convento, filha de agricultores pobres, não conseguiu estudar naquele estabelecimento de ensino. Ficou com o segundo ano primário, que lhe proporcionara sua mãe, a professora municipal Auta Teixeira, no mesmo grau cultural de quando diz ter visto a santa. Sempre trabalhou no convento em atividades de cozinha, rouparia e nas capelas dos conventos por onde esteve. Após o Concílio Vaticano II é "que foi alertada para a necessidade de evangelizar" e atualmente presta seus serviços assistenciais aos favelados do bairro da Torre (Recife).

Dos padres que prestavam serviços religiosos na Diocese (1936) o único que investigou acuradamente o acontecido, junto às duas crianças, foi o alemão José Kehrle, já falecido que até escreveu um livro sobre o assunto, na época secretário geral da Diocese de Pesqueira. Baseado nos seus escritos foi que a revista católica alemã "Konnesreuthes Jahrbuck" publicou notícias detalhadas a respeito das meninas que viram a santa.

​A página 23 do caderninho de Maria da Luz (irmã Adélia) ela escreveu: "... começa a perseguição de Lampião no sertão, as notícias alarmavam, o medo crescia, era para mim um grande sofrimento. As notícias eram alarmantes... o povo se angustiava pois eles (os cangaceiros) estavam descendo (da Paraíba) para Pernambuco. Até que chegou o dia do ataque (pelos celebrados) sequestrando o fazendeiro sr. Rogério de Brito (lpanema). Fomos obrigados a sair de casa para ir dormir no mato três noites. Quatro famílias (da vizinhança) se juntaram e cinco rapazes e três moças juntos, rezávamos o terço com muito fervor. Mamãe nos acompanhou com uma criancinha (irmão de Maria da Luz) de apenas três meses, que faleceu dias depois. Papai não saiu de casa. Disse que tinha confiança (e fé) no Coração de Jesus e foi nos buscar na mata (levando-nos para casa) dizendo que "daqui ninguém sai. Vamos morrer juntos."

​... "Lembro-me que pedi muito (a Deus) para entrar no Convento. Também suplicamos que Deus mandasse um jeito para acabar (nossa) aflição, — isto acontecia no mês de maio de 1936. E as perseguições, cangaceiros, continuavam e nos traziam terríveis notícias..." 

​— Continua no próximo número —

Na segunda reportagem desta série (que anunciadamente seria de apenas três, mas, que serão quatro), para não deixar incompleto o relato documentário de Maria da Luz (hoje Irmã Adélia), continuo, hoje, a conclusão do seu impressionante depoimento.

​“PARECE QUE FOMOS VOANDO...”

"Papai vai plantar na fazenda onde sua mãe morava, na sua (dele) parte de terra. Me convida para plantar milho. Eu gostava muito desses passeios. Aceitei (o convite) e partimos (no dia seguinte) muito cedo a cavalo. Me sentia muito feliz em acompanhar meu querido pai. Terminado o trabalho, almoço, depois fui convidada a dar um passeio à casa de meu tio Mesquita. Tomamos o caminho e, de lado, minha vista deu com uma choupana (somente) pela metade.

​Ali morava uma família agregada ao trabalho do meu tio. Me aproximei e encontrei uma mocinha de uns 14 anos, maltrapilha e (tive pena dela) logo convidei-a para vir morar comigo e trabalharmos juntas as duas.

​Ela aceitou logo. Na volta me acompanhou e (a partir daí) começamos a trabalhar juntas. Procurei logo repartir minhas roupas com ela. Foi quando comecei a sentir a necessidade de saber costurar para vestir a mocinha (chamava-se Maria da Conceição) que arranjara...

​A partir daí, comecei a me preocupar com ela, pois me ajudava (muito) nos trabalhos caseiros. Eu precisava ganhar (dinheiro) para comprar o necessário, pois via as dificuldades que papai e mamãe passavam. Aproveitei a semana em que mamãe foi para a casa (fazenda) dos seus, me deixando tomando conta de nossa casa.

Combinamos (eu e a mocinha, Maria da Conceição), partirmos no dia seguinte e começarmos (nosso) o trabalho. Era um dia de quarta-feira – 6 de agosto de 1936. Quando todo o trabalho estava feito, os balaios cheios de sementes de mamona (que estávamos colhendo) encontramos (os balaios) em um lugar e subimos em uma pedra que (donde) se avistava lá embaixo a fazenda que havia poucos dias os cangaceiros (de Lampião) tinham passado.

Começamos a ter medo.

Começou a neblinar.

De repente, em nós se apoderou uma (estranha) força, que não sei explicar, nem compreendíamos, ficamos mergulhadas em outra atmosfera e, esquecendo o medo, subimos (mais ainda) o monte (despenhadeiro), sem sentir os espinhos (alastrado), os abismos, parece que fomos (como que) voando!...

​Desde esse dia, que nunca mais pudemos trabalhar (em paz) porque as visitas e as romarias (eram demais); começaram e passamos três meses sem ter tempo até de nos alimentar.

​Aconselharam-nos que deveríamos ir a Pesqueira (sede da Diocese) e contar ao Bispo (Dom Adalberto Sobral), que (na oportunidade) nos interrogou...

​– "Foi um sofrimento. Ninguém acreditava em nós". Quem fala é dona Auta, genitora da Irmã Adélia (Maria da Luz). "Meu marido chegou a ser preso só porque foi na cidade dizer que as meninas tinham visto a santa. Agora, eu espero que Deus nos proteja e, graças a Deus, o bispo, dom Palmeira, já veio aqui").

​(Conheço a professora municipal Auta, desde o tempo, eu mocinho, secretário da Prefeitura, e ela é uma mulher competente e muito consciente).

"Foi numa dessas visitas (é do "diário" da Irmã Adélia) ao sr. Bispo Dom Adalberto Sobral, que me encontrei com o padre alemão, José Kehrle, que se interessou pelo caso, que tomou nota de todos os acontecimentos".

 "EU SOU A GRAÇA"

No depoimento das videntes Maria da Luz e Maria da Conceição, ao padre alemão, (já falecido), José Kehrle, quando o sacerdote (era o Secretário do Bispado na época), perguntou-lhes qual teria sido o primeiro diálogo entre elas e Nossa Senhora, no relato do padre está escrito (publicado na revista católica alemã "Konnestreuthes Jahrbuch") que, na manhã do dia 6 de agosto de 1936, quando elas (Maria da Luz e Conceição, garotas de 13 anos) no Sítio Guarda (Cimbres) num local de acesso difícil, a ele, informaram-lhe que tudo começou quando Maria da Luz (Irmã Adélia) indagou de sua companheira:

​– "E se Lampião aparecesse agora?..."

​– "Nossa Senhora nos protegia" – respondeu, convictamente, Conceição.

​(Então aconteceu o que Maria da Luz (Irmã Adélia) nos conta no seu diário, um modesto caderno escolar (xeroque publicado na última edição), em nosso poder e que desejamos oferecer, como documentário, aos interessados no assunto e que ficará como patrimônio do acontecido, lá, na futura capela do Sítio Guarda):

​"Chorávamos de medo. Começou a neblinar. De repente, em nós, se apoderou uma estranha força, que não sei explicar, nem compreender; ficamos mergulhadas em outra atmosfera e subimos mais ainda o despenhadeiro (inóspito), sem sentir os espinhos (alastrado), os abismos, parece que fomos voando!..."

​Nesse instante, ambas estáticas, embevecidas, viram aparecer uma senhora coberta com um manto azul e branco, carregando uma criança nos braços, sorrindo para elas. Naquela "atmosfera", como se estivessem "voando", a hoje Irmã Adélia, perguntou, admirada:

​ – "Quem é a senhora?!..."

​ E aquela senhora simpática, com um sorriso santo, maternal, lhe respondeu:

​ – "Eu sou a graça".

​ Simplesmente. Era Nossa Senhora!...

​Esse "bolo" da aparição, minha gente, já dura 51 anos, mais de meio século. E eu, que não acreditava naquilo. Encarava o fato com certo ceticismo, era uma criança à época, tinha meus onze anos. E a campanha contra o fanatismo, promovida pelo sr. Bispo era tremenda, acho que isso me sequelou. Falava-se em diversas curas milagrosas aos doentes que visitam o local da aparição. E eu... nem estou aí.

​Sem acreditar, pois não!

Até que no dia 5 de outubro de 1985, um sábado, aconteceu algo de sobrenatural na vida de um repórter do "hinterland" pernambucano. Nada mais, nada menos, que o degas aqui, eu!!! 

​— Conclui no próximo número —

 O DESABAMENTO

Naquele sábado, 5 de outubro de 1985, estávamos, eu e o vereador Raimundo Bezerra, em plena campanha política, no povoado de Cajueiro, distrito de Cimbres. Seriam dez horas da manhã e, a cavalo, nos dirigimos em demanda da propriedade do edil amigo, bem próxima ao Sítio Guarda, local onde, há 50 anos, em lugar inacessível, num penhasco, duas jovens campesinas tinham sido surpreendidas com a aparição de Nossa Senhora.

​Do lugar onde nos achávamos, — uma colina, — Raimundo me mostrou ao longe, cerca de uns 500 metros de distância, o local da gruta, onde ocorrera a manifestação súbita da Virgem. Ceticamente, achei graça no sentimento de fé demonstrado por Raimundo. Pra mim era uma ingenuidade, pois desde criança, no ano da graça de 1936, eu fora condicionado a não acreditar no ocorrido, pois o bispo à época, Dom Adalberto Sobral, proibira a seus fiéis tal manifestação, pois entendia que se tratava tão somente de fanatismo.

Naquele instante, instintivamente, puxei da carteira de cédulas, lembrando-me, por analogia, da medalhinha que me presenteara minha nora Neyde Neves, com a efígie de N.S. da Luz, para que, andando sempre com ela, me protegesse de desastres ou algo fatal para mim.

​— "Foi ali, Luiz Neves, - apontou-me Raimundo, - que as duas meninas viram a aparição da Virgem Santa, Nossa Senhora. Uma delas, que hoje é freira, se chamava Maria da Luz, — me afirmara, momentos antes, o amigo.

Ipso facto, recordei-me do "Diário" da irmã Adélia (Maria da Luz), atualmente religiosa do Convento das Damas Cristãs (Recife) e que há quase um ano antes (1984) viera parar em minhas mãos, através do meu filho Waldison (Didi) Neves. Retirei da carteira a medalhinha e fiquei por momentos a fitá-la, guardando-a, novamente.

Seriam 13 horas (uma hora da tarde) quando terminamos nossa missão política nas proximidades do Sítio Guarda, quando Raimundo me convidou para regressarmos a Pesqueira.

​No caminho da volta, ao passarmos na serrinha, demos uma parada no Bar do "Papa", bem próximo ao Cruzeiro, para nos deliciarmos com uma saborosa e bem manipulada "buchada", puxada a "pitú" e rebatida, com toda "classe", com uma saborosa "antarctica" bem geladinha, no "ponto". Terminado o ritual boêmio-gastronômico, o ponteiro do meu relógio acusava quatro horas da tarde.

​Como acentuei no texto contido na primeira reportagem desta série, tenho por hábito, após o almoço, ouvir o noticiário do jornal da tarde transmitido pela rede Globo, dormir; acordando-me por volta das 5 ou 6 horas da tarde, pagando, assim, as horas de sono, devidas pelo hábito pouco comum de ficar acordado das 2 da madrugada até as sete/oito horas da manhã, escrevendo, estudando, pesquisando ou lendo, por ser para mim, o melhor período em que me encontro comigo mesmo, para percepção e externação de ideias.

Embora tendo a casa de minha mãe Blandina e das minhas irmãs (13 de Maio, 85), durmo sempre na casa de minha filha Waldleusa ("Leleu"), na mesma rua, três casas depois, em direção à agência local do INPS.

Ao chegar em casa, à tardinha daquele sábado, vi muita gente curiosa à porta da casa de minha filha. De imediato senti que me acontecera algo de anormal, pois muita gente estava com o ar de estupidificada. No momento, no pensamento me apelei logo para minha santinha Nossa Senhora da Luz, pela incolumidade dos meus familiares.

​Uma senhora da vizinhança, meu cunhado, meus amigos ao me verem, a una voce, agitados, acorreram ao meu encontro, assim que saltei do carro e me diziam, atabalhoadamente: 

​— "Uma coisa horrível! A metade da casa desabou! Mas, tenha calma que graças a Deus, por milagre, não tem ninguém ferido!"

​Sem querer ouvir mais nada, entrei na casa. Minha filha, meu genro, meus netinhos, com lágrimas nos olhos, visivelmente impressionados com o desastre, vieram ao meu encontro e me abraçaram emocionadamente; sei que trocamos muitos beijos e abraços e a filha não deixava de repetir:

​— "Papai! Graças a Deus o senhor estava ausente! Venha ver como a metade da casa ficou! Venha ver que desastre horrível!..."

​E puxando-me por uma mão, (eu era como que, um autômato, cheio de interrogações, completamente atordoado), segui-a até o local onde fora o quarto que me servia de dormitório. Foi quando senti que escapara de morrer (e bem morrido!), pois o fato acontecera, se muito fazia, há uma hora antes, horário reservado à minha costumeira deforeta.

​Então, vi o escangalho, o estrago: a linha mestra da cumeeira, tinha caído com toda sua estrutura, - telhas, caibros, os escambaus! - por cima da minha cama e da do meu netinho. Tal era o acúmulo de escombros que o guarda-roupa e os demais móveis do quarto, ninguém via! Também, uma parte da sala de jantar fora completamente destroçada, onde, segundos antes, ali estavam minha filha, as duas netinhas e duas sobrinhas. Disse-me à filha que momentos antes, algo como que instintivo, tinha alavancado sua vontade e daí para a sala da frente fora questão de segundos, quando se ouviu o estrondo da implosão.

MILAGRE OU... COINCIDÊNCIA?!...

Vivendo o impacto do ocorrido, passei mais de uma hora sem acreditar no que vira. Fora muita coincidência... ou um milagre? minha ida fortuita, improgramada, me levara para as proximidades do Sítio Guarda... onde aparecera a Santa... estava completamente atônito!

​Já na casa de minha mãe Blanda, tomei um café bem forte, fumei um cigarro e, de coração, dei graças a Deus por me ter saído, me tangendo pro Sítio Guarda... Mas, pensei, eu tinha um agradecimento todo especial a fazer: à Nossa Senhora da Luz, através da medalhinha que eu conduzia todas as horas, todos os dias, comigo.

​Sorrindo, por ter, milagrosamente, renascido, abri minha carteira de cédulas para, olhando para efigie de N.S. da Luz, agradecer-lhe do fundo do coração... Qual não foi minha decepção! A medalhinha, por incrível que isto possa parecer, tinha desaparecido de minha carteira!... Mas, como?!... Sei que estou relatando a história como realmente ela ocorreu. Perdera, misteriosamente, a medalha de N.S. da Luz. Naquela evidência, fiquei transtornado, completamente encucado!...

​Sei que estou vivinho da silva, contando a história. Tentara por duas vezes, munido de máquina fotográfica, gravador, etc., fazer a reportagem sobre a aparição. Por motivos jamais por mim compreendidos, não pude realizá-la! E quando, nem por sonho nisso pensava, lá estava eu, bem próximo do local da aparição de N. Senhora... O que me salvara a vida!

​MILAGRE OU... COINCIDÊNCIA?!... Por Deus, confesso, jamais saberei explicar!

Apenas faço este depoimento que me sai sincera e profundamente do coração...

"Cor ad cor loquitur", - o coração fala ao coração!

​Vocês, meus irmãozinhos, que tirem as suas conclusões pois ainda me encontro, - dois anos são passados, - naquela "onda"....

 

 Luiz Neves. 

***

NOTA EXPLICATIVA

A presente publicação reúne, em um único artigo, a série de quatro reportagens de autoria do jornalista pesqueirense Luiz Neves, originalmente publicada no Jornal de Pesqueira, entre março e junho de 1987.

Intitulada “A aparição de Nossa Senhora da Luz, no Sítio Guarda, em Cimbres, Distrito de Pesqueira — Milagre ou coincidência?... estranha ocorrência aconteceu com o repórter”, a série apresenta, em forma de depoimento pessoal e reportagem, a experiência vivida por Luiz Neves em outubro de 1985, quando, durante uma ida ao Sítio Cajueiro, nas proximidades do Sítio Guarda, tomou contato mais próximo com a história da aparição de Nossa Senhora às jovens Maria da Luz, posteriormente Irmã Adélia, e Maria da Conceição, ocorrida em 6 de agosto de 1936, há 90 anos.

É importante destacar que, ao longo de toda a série publicada em 1987, a aparição é mencionada como Nossa Senhora da Luz, denominação utilizada nas reportagens e na tradição da época. Atualmente, a mesma devoção recebe o título de Nossa Senhora da Graça. A manutenção da denominação Nossa Senhora da Luz nesta série respeita, portanto, a forma como o acontecimento foi registrado originalmente pelo jornalista Luiz Neves, preservando a fidelidade histórica do documento.

Ao longo das quatro edições, o jornalista recupera elementos da história das aparições, apresenta trechos do caderno de memórias de Maria da Luz (Irmã Adélia) cuja cópia esteve em suas mãos, menciona os registros do padre alemão José Kehrle e narra as circunstâncias que o levaram, décadas depois, a aproximar-se novamente daquele acontecimento.

O ponto central do relato é o episódio ocorrido em 5 de outubro de 1985, quando Luiz Neves esteve nas proximidades do Sítio Guarda e, ao retornar a Pesqueira, descobriu que parte da casa onde costumava dormir havia desabado justamente sobre o quarto e a cama que ocupava. O próprio repórter relaciona a circunstância à medalhinha de Nossa Senhora da Luz que carregava consigo e deixa ao leitor a pergunta que atravessa toda a série: “Milagre ou coincidência?”

A força documental da série está também no fato de Luiz Neves não apresentar o episódio como uma conclusão definitiva. Ao contrário, embora profundamente impactado pelo acontecimento, ele reconhece não saber explicá-lo e entrega ao leitor a liberdade de formar sua própria interpretação. Ao final, reafirma que se trata de um depoimento sincero, marcado por uma experiência que, segundo suas próprias palavras, jamais conseguiu compreender inteiramente.

Esta publicação única preserva, portanto, a sequência original das quatro reportagens, reunindo um importante registro jornalístico sobre a Aparição de Nossa Senhora da Luz no Sítio Guarda, em Cimbres, e, ao mesmo tempo, um testemunho pessoal de Luiz Neves acerca de um episódio que permaneceu como uma das experiências mais marcantes de sua trajetória.


Por Fábio Menino de Oliveira.

FOTOGRAFIAS












Fonte: Jornal de Pesqueira, edições nº 1, março de 1987; nº 2, abril de 1987; nº 3, maio de 1987; e nº 4, junho de 1987.

Autoria das reportagens: Luiz Neves.

Série: quatro reportagens.

Fotografias: os registros da publicação original foram melhorados por IA.


sábado, 27 de junho de 2026

UM SÉCULO EM UM SÍMBOLO: A LOGOMARCA QUE ETERNIZOU O CENTENÁRIO DE PESQUEIRA

Como é de praxe, uma data importante precisa de uma marca que identifique sua relevância histórica e registre as comemorações. Assim foi concebida a logomarca do Centenário de Pesqueira (1880-1980), aprovada pela Comissão do Centenário de Pesqueira (COCENPESQ), sob a presidência de Oton Augusto de Almeida.

O desenhista responsável pela criação da logomarca foi Carlos Alberto Falcão da Rocha, sobre o qual se fazem necessários alguns dados biográficos.

Nascido em Pesqueira no dia 26 de abril de 1949, Carlos Alberto era filho de Luís Ferreira da Rocha (industriário e político, eleito vereador de Pesqueira por dois mandatos: 1947/1951 e 1955/1959) e de Maria Iracema Falcão da Rocha. O casal teve, além de Carlos Alberto, outros nove filhos: José Antônio, Maria do Carmo, Sílvio Romero, Paulo Eduardo, Luís Wilson, Maria Ângela, Maria Helena, José Geraldo e Cícero Eduardo (adotivo).

Pelo lado paterno, é neto de Simão Ferreira da Rocha, fundador da Fábrica Tigre em 1918, e de Luísa Carolina da Rocha. Pela linhagem materna, é neto de Heráclito Marinho Falcão, coletor de impostos no Brejo da Madre de Deus, e de Amália de Souza Falcão.

FAMÍLIA ROCHA. Em pé da esquerda para a direita José Antônio, Sílvio Romero, Iracema, Luís Rocha, Maria do Carmo e Paulo Eduardo. Embaixo da esquerda para a direita Carlos Alberto, José Geraldo e Luís Wilson. Na frente as meninas Maria Helena e Maria Ângela. Fotografia tirada em julho de 1961 na residência da família na Rua Cardeal Arcoverde, nº 65, próxima da Câmara de Vereadores.

Carlos Alberto mudou-se para Recife em 1964, onde concluiu no Colégio Pernambuco, o curso ginasial iniciado no Colégio Cristo Rei. Posteriormente, cursou o ensino superior na Escola Técnica Federal de Pernambuco, concluindo sua formação em 1968. Casou-se na capital pernambucana, em 12 de janeiro de 1976, com Áurea Belém Ferreira.

Do ponto de vista profissional, iniciou sua trajetória como desenhista, ingressando posteriormente como analista de sistemas na Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), onde se aposentou.

A criação da logomarca do Centenário de Pesqueira surgiu a partir de um pedido de sua tia Nair Falcão, professora e diretora do tradicional educandário pesqueirense, o Colégio Ruy Barbosa, e irmã de sua mãe.

Carlos Alberto Falcão da Rocha.

Sobre o significado do símbolo, Carlos Alberto escreveu, em carta publicada pelo jornal Pesqueira Notícias, na edição de junho de 1996: “De minha autoria é a LOGOMARCA, ou seja, o símbolo onde estão a figura humana estilizada à frente das carretas, indicativos da valorização que deve ser dada ao ser humano em primeiro lugar e da vocação de cidade industrial de Pesqueira.”

Explicando de forma mais ampla o desenho tem como elemento principal a figura de um homem em tonalidade bronze que depois foi modificado para vermelho, associado ao algarismo “1”, formando a ideia do número 100. Esse homem representa o pioneiro, o desbravador das primeiras terras, o trabalhador rural e todos aqueles que contribuíram para a formação e o desenvolvimento do município. A imagem simboliza a força humana, a coragem e o espírito empreendedor que marcaram a história de Pesqueira desde suas origens.

Os dois zeros nas cores amarelo e verde que completam o número centenário destacam a comemoração dos 100 anos de história, enquanto as carretas com engrenagens representam a união dos homens voltados para o progresso. Esses elementos simbolizam o transporte, o comércio, a atividade econômica e o esforço coletivo responsável pelo crescimento da cidade, demonstrando a ligação entre o trabalho do campo, a produção e o desenvolvimento social.

Assim, a logomarca do Centenário sintetiza a memória e a identidade de Pesqueira, unindo passado, presente e futuro: o passado representado pelos pioneiros que construíram os primeiros caminhos; o presente marcado pela celebração de um século de conquistas; e o futuro simbolizado pelo movimento das engrenagens, indicando a continuidade da caminhada de progresso e transformação.

Em suma, Carlos Alberto fez muito mais do que uma marca comemorativa, ele teve a felicidade de eternizar um século em um símbolo. A sua criação concebeu uma insígnia que representa a própria essência do povo pesqueirense: a humanidade e o trabalho de um povo pioneiro, laborioso e unido, que construiu sua história através do esforço coletivo e da busca permanente pelo desenvolvimento.

Por Fábio Menino de Oliveira.

 

 

domingo, 21 de junho de 2026

DE DR. LÍDIO PARAÍBA A DOM VITAL: OS 101 ANOS DA INAUGURAÇÃO DE UMA ESCOLA MUNICIPAL

 

Foto do Álbum da Administração Cândido de Brito.

A administração do prefeito Cândido Cavalcanti de Brito (1923-1925) realizou importantes investimentos na área da educação no município de Pesqueira. Para se ter uma ideia, no último trimestre de 1923, a prefeitura destinou à instrução pública o valor de 2:946$940; já no ano seguinte, o montante total investido passou para 16:574$420. Entre as ações realizadas com esses recursos estava a construção dos grupos escolares municipais.

Um desses grupos escolares recebeu o nome de Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba, em justa homenagem ao ilustre esculápio gaúcho que adotou Pesqueira como sua terra e, por décadas, cuidou de sua população — a mesma gente que lhe dedicava respeito, admiração e reconhecimento pelo seu trabalho e por suas qualidades humanas.

De acordo com informações obtidas nos periódicos Diário de Pernambuco e A Província (23/06/1925) a Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba foi inaugurada no sábado, 21 de junho de 1925, às 18h30. Estiveram presentes ao ato solene o Dr. Sérgio Loreto, governador de Pernambuco; Dr. Aníbal Fernandes, secretário de Justiça e Instrução Pública; Dr. Samuel Hardman, secretário da Agricultura; cônego Henrique Xavier, presidente da Câmara dos Deputados Estaduais, acompanhado de seus pares, os deputados Fraga Rocha, Bezerra Filho, Jorge Correia de Araújo e Anísio Galvão; Cândido de Brito, prefeito de Pesqueira; e o homenageado, Dr. Lídio Paraíba. Além deles, participaram outras autoridades, auxiliares e jornalistas que integravam a comitiva governamental.

Discursaram na ocasião o jornalista e deputado Anísio Galvão, em nome do prefeito Cândido de Brito, e o Dr. Lídio Paraíba, que agradeceu a honraria de ter sido escolhido como patrono do novo educandário municipal. Por último, usou da palavra a primeira professora da escola, a senhorita Severina Duque, que proferiu um breve, porém belo discurso, alusivo à solenidade.

Com relação à arquitetura do prédio recém-inaugurado a mesma era simétrica e refinada, típica de construções institucionais do interior brasileiro no início do século XX com influências do estilo eclético simplificado, coroada por um vistoso telhado de quatro águas em telhas coloniais e cornija saliente. Sua fachada exibia a inscrição pintada com o nome do estabelecimento de ensino logo abaixo do beiral e contava com um mastro vertical centralizado para o hasteamento da bandeira. A imponente porta central de madeira almofadada e as duas janelas retangulares laterais eram preenchidas por elegantes caixilhos quadriculados de vidro, sendo todas as aberturas emolduradas por detalhadas sobrevergas decorativas e mísulas em relevo que conferiam ao edifício público um forte senso de ordem, dignidade e permanência.

Vale salientar que, na mesma data, foram inaugurados em Pesqueira o Grupo Escolar Virgínia Loreto (atual Ruy Barbosa) e o Açougue Municipal. No dia seguinte, a comitiva dirigiu-se ao então distrito de Rio Branco, atual Arcoverde, onde inaugurou o Grupo Escolar Dr. Loreto Filho.

O grupo escolar com a inscrição na fachada Escola Municipal Dom Vital.
Foto do acervo de Marcelo O. Nascimento, 2012.

Pois bem, as únicas informações disponíveis sobre o funcionamento da Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba são aquelas referentes à sua inauguração. Sabe-se que o nome do patrono do grupo escolar foi alterado em data ainda não localizada, devido à escassez de fontes documentais, passando a denominar-se Escola Municipal Dom Vital, nomenclatura que já existia em 1953, conforme consta no Diário Oficial do Estado, edição de 27/05/1953, que registra a nomeação, pela Divisão de Ensino Profissional Rural e Supletivo, da professora Estelita Leite de Mendonça para continuar lecionando o ensino supletivo na Escola Municipal Dom Vital, localizada na sede do município de Pesqueira.

Ao que consta, a Escola Municipal Dom Vital permaneceu ativa até 1979, quando encerrou suas atividades como educandário. Laurene Martins, em sua coluna Sempre aos Domingos, publicada no jornal Nova Era, edição de 27/01/1980, assim escreveu:

ESCOLA MUNICIPAL DOM VITAL. O Ano Internacional da Criança aqui em Pesqueira terminou com o fechamento de uma escola que servia para o aprimoramento da própria criança. Trata-se da Escola Municipal Dom Vital localizada à Praça Manoel Caetano de Brito, que agora é sede do Ciretran, numa prova talvez de que o DETRAN-PE vive na miséria e não pode construir um prédio aqui em Pesqueira. Nem mesmo alugar. Será que as taxas cobradas, são insignificantes? Tem água neste chope.                                                            

Com isso, após 54 anos de atividades como escola, o prédio tornou-se sede da CIRETRAN de Pesqueira, permanecendo naquela edificação por alguns anos. Posteriormente, não se sabe ao certo para quais finalidades o imóvel foi utilizado. É certo, contudo, que também serviu como sede da Pastoral da Criança e que, em meados de 2010, a Prefeitura de Pesqueira fez a cessão do espaço para a Associação Cultural Vivarte, tendo à frente Josinaldo Oliveira, Hercílio Torres e Carlos Henrique Romeu Cabral (in memoriam).

Vivarte em 2017.

A Vivarte promoveu a reforma do prédio, que se encontrava em estado de abandono, e iniciou suas atividades culturais por meio do teatro, do cineclubismo e de produções carnavalescas. Contudo, as atividades precisaram ser suspensas em razão de problemas estruturais, sobretudo relacionados ao telhado da edificação.

Ao completar 101 anos de existência, o antigo prédio da Escola Municipal Dr. Lídio Paraíba, posteriormente denominada Escola Municipal Dom Vital, permanece como um importante testemunho da história educacional e cultural de Pesqueira. Suas paredes guardam as memórias de gerações que ali tiveram acesso ao conhecimento, à formação cidadã e às primeiras experiências no universo do saber, cumprindo, durante décadas, o propósito maior para o qual foi construído: ser um espaço dedicado à educação.

Hoje, ressignificado como sede da Associação Cultural Vivarte, o imóvel passando por uma reforma, continuará exercendo uma função social de grande relevância como espaço de valorização da cultura, das artes e da memória coletiva. A preservação e a recuperação de sua estrutura representam não apenas a restauração de um patrimônio arquitetônico centenário, mas também a continuidade de uma missão iniciada em 1925: promover conhecimento, formação e transformação social.

Vivarte em 2018.

Em síntese, desejamos que aja o apoio e o incentivo do poder público a Vivarte para que seja feita com urgência a reforma desse prédio histórico com vistas a garantir sua permanência como um verdadeiro Centro de Cultura e do Saber, unindo passado e presente, educação e arte, memória e futuro. Assim, o antigo grupo escolar seguirá vivo, acolhendo novas gerações e reafirmando sua importância como um dos espaços simbólicos da identidade cultural de Pesqueira.

Por Fábio Menino de Oliveira.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A GAZETA DE PESQUEIRA E A CHEGADA DA FERROVIA EM 1907

Estação de Pesqueira na década de 1920. Foto de José Severiano Netto
publicada no livro Pesqueira Secular (1980).

As edições da Gazeta de Pesqueira publicadas entre janeiro e maio de 1907 permitem acompanhar, quase em tempo real, a expectativa da população diante da chegada da estrada de ferro à cidade. As notícias revelam entusiasmo, cobranças e até críticas à empresa responsável pelo serviço ferroviário, constituindo um importante registro da implantação de um dos maiores símbolos do progresso no interior pernambucano.

Na edição nº 53, de 13 de janeiro de 1907, o jornal registrava a chegada dos trilhos à Pesqueira vindos de Sanharó, cuja estação foi inaugurada em 1º de novembro de 1906: “O assentamento de trilhos de Sanharó a esta cidade acaba de chegar á nossa estação da via férrea, e não há quem não se entusiasme ouvindo os silvos da ruidosa catita, que ao mesmo tempo despeja para o espaço baforadas de fumo. É lastima que a inauguração só se realize em Março, conforme dizem os competentes. Com o progresso regozijai!”

Entretanto, a inauguração ocorreria antes do previsto. Em aviso oficial publicado pela The Great Western of Brazil Railway Company Limited, datado de 4 de fevereiro de 1907, a companhia anunciou a abertura da estação de Pesqueira ao tráfego provisório: “Na quarta-feira próxima, 6 do corrente mês, será aberta a Estação de Pesqueira ao tráfego provisório para passageiros, bagagens e mercadorias. Nas segundas, quartas e sextas-feiras um trem misto partirá às 4h35 da tarde de Sanharó chegando em Pesqueira às 5h15, voltando nas terças e quintas-feiras às 5h35 da manhã, chegando em Sanharó às 6h15 e nos sábados partindo de Pesqueira às 7h35 da manhã chegando em Sanharó às 8h15. Estes trens correrão nestes dias em combinação com os trens mistos entre Recife e Sanharó, não havendo alteração alguma no horário atual dos trens mistos entre Recife e Sanharó. Recife, 4 de fevereiro de 1907. J. A. Lorimer, Gerente-interino.”

O comunicado estabelecia ainda os primeiros horários de circulação dos trens entre Sanharó e Pesqueira, marcando oficialmente a entrada da cidade na rede ferroviária pernambucana. Dessa forma, 6 de fevereiro de 1907 pode ser considerada a data de inauguração operacional da estação ferroviária de Pesqueira.

Bilhete postal para o presidente Afonso Pena informando a inauguração
do tráfego da Ferrovia de Pesqueira, 11.2.1907.

A efetiva abertura da linha é corroborada por documentação preservada no arquivo do então presidente da república, Afonso Pena. Entre os documentos encontra-se um bilhete postal enviado por Luís Gomes, de Petrópolis, em 11 de fevereiro de 1907, contendo uma saudação pela inauguração do tráfego de Pesqueira. A mensagem, registrada apenas cinco dias após a data anunciada pela Great Western, demonstra que a notícia da abertura da estação e do início das operações ferroviárias já circulava pelo país, confirmando que o tráfego provisório encontrava-se em funcionamento nos primeiros dias de fevereiro de 1907.

Pouco depois, a Gazeta em sua edição nº 60, de 3 de março de 1907, anunciava a expectativa de ampliação do serviço: “Estamos informados que do dia 5 em diante serão diários os trens do Recife a esta cidade e vice-versa.”

Por sua vez, na edição nº 66, de 14 de abril de 1907, a ferrovia já era tratada como uma realidade consolidada: “No dia 18 será aberto definitivamente o trafego da via-férrea até esta cidade e vice-versa para o Recife, sendo diários, dessa data em diante, os trens.” A mesma notícia registra um problema que acompanhava a chegada das composições: “A molecagem continua desenfreada e invade os carros que chegam á estação. Polícia com eles.”

Gazeta de Pesqueira, 14.4.1907

Entretanto, a expectativa de trens diários logo deu lugar à insatisfação. Na edição nº 68, de 28 de abril de 1907, a Gazeta publicou o horário oficial expedido pela Great Western e protestou contra a limitação do serviço: “Conforme se verifica do edital expedido pela Great Western, os trens chegarão nesta cidade às 4 horas e 50 minutos da tarde nas segundas, quartas e sextas, e partirão para o Recife às 6 horas da manhã nas terças e quintas, e às 8 horas todos os sábados.”

Em seguida, o periódico questionava: “Assim sendo, e não os trens diários, que vantagens obtivemos nós? Então uma cidade como esta continua inferior a todas as outras localidades?” O tom crítico prosseguia com uma defesa dos interesses da região sertaneja: “Transformaremos em baluarte as colunas deste periódico, que tem a necessária independência, e é o legitimo representante de toda a zona sertaneja.”

Finalmente, a edição nº 70, de 12 de maio de 1907, informava uma nova alteração nos horários: “Desde o dia 7 que temos trens diários, e de acordo com o edital da Great Western obedecem ao seguinte horário: terças, quintas e sábados, chegarão nesta cidade às 5 horas e 30 minutos da tarde; segundas, quartas e sextas, partirão para o Recife às 7 horas da manhã.”

            Assim, a documentação disponível permite afirmar que a chegada da ferrovia a Pesqueira ocorreu em duas etapas distintas: a abertura provisória ao tráfego de passageiros, bagagens e mercadorias em 6 de fevereiro de 1907, conforme o aviso da Great Western, e a abertura definitiva da linha, anunciada pela Gazeta de Pesqueira para o dia 18 de abril de 1907, quando os serviços passaram a operar de forma regular e com maior integração à malha ferroviária do Estado.

           Por fim, esses registros demonstram a importância da chegada da ferrovia para Pesqueira e evidenciam o papel da Gazeta de Pesqueira como porta-voz das expectativas, reivindicações e aspirações da população local diante de uma das maiores transformações urbanas, econômicas e sociais do início do século XX. Entre o entusiasmo pelos primeiros silvos da locomotiva e as cobranças por melhores horários e maior frequência de viagens, o periódico documentou a inserção de Pesqueira nos trilhos do progresso e da modernidade, tornando-se uma fonte indispensável para a compreensão desse marco histórico da cidade.


 Por Fábio Menino de Oliveira