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| Professor José Cavalcanti Sá Barreto. Foto: Diário de Pernambuco, 24/2/1952. |
Augusto Duque, na crônica Breves reflexões sobre o pesqueirismo,
publicada no Diário de Pernambuco, edição comemorativa do centenário de Pesqueira,
em 19 de abril de 1980, assim escreveu: “Existe mesmo um ‘pesqueirismo’, do que
ouvi falar, pela primeira vez, em 1946, em discurso do prof. José Cavalcanti Sá
Barreto, o que registrei em trabalho publicado em 1947.”
A obra citada é Documento sobre o Agreste, a primeira a registrar o novo termo e na
qual Augusto Duque interpreta o neologismo pesqueirismo, dito pelo professor Sá
Barreto, como o “sentimento regionalista, aquele evidente bairrismo entusiasta
dos filhos da cidade serrana.”
O professor José Cavalcanti Sá Barreto
(Pesqueira-PE, 18/05/1912 – Recife-PE, 19/05/1985) era filho de Austriclínio de
Castro Sá Barreto (1883-1929) e Herundina Cavalcanti Sá Barreto (1878-1961),
que se casaram em Pesqueira no dia 2 de outubro de 1908. Neto paterno de José
de Castro Sá Barreto e Belmira Genuína Loiola da Rosa. Neto materno de Manoel
Bezerra Cavalcanti e Teresa Bezerra de Siqueira Barbalho.
O professor Sá Barreto foi catedrático de
Literatura Italiana na Faculdade de Filosofia de Pernambuco e de Latim no
Instituto de Educação de Pernambuco. Além dessas cátedras, lecionou na Escola
Normal Oficial, no Colégio Pernambucano, no Colégio Estadual do Recife e no
Curso de Ciências da Administração da Universidade Católica de Pernambuco.
Exerceu as funções de presidente em exercício do Conselho Estadual de Educação
(1965) e foi seu vice-presidente (1964-1976). Por sua atuação na educação
pernambucana, foi agraciado com o título de Professor Emérito da Universidade
Federal de Pernambuco (1983).
Contudo, não foi apenas no magistério que o
professor se destacou; ele também militou na política, atuando como presidente
estadual do Partido da Representação Popular (PRP), sendo candidato a deputado
estadual nas eleições de 1947. Ficou na primeira suplência, visto que o eleito
do partido foi o médico Dr. Lídio Paraíba. Tendo sido candidato a deputado
federal em 1950, não logrou êxito no pleito.
Um adendo importante é que Augusto Duque foi
seu companheiro de partido, e os membros do PRP reuniam-se todas as
quintas-feiras, às 20h, na sede localizada à Rua Santa Cruz, nº 100, Boa Vista,
Recife. O que nos permite inferir que possa ter sido em uma dessas reuniões, no
ano de 1946, que o termo pesqueirismo tenha sido dito pela primeira vez, em
mais um dos discursos de oratória eloquente e vibrante, característicos da
intelectualidade do mestre.
O professor Sá Barreto foi casado com Dorothy
Montenegro Sá Barreto, e da união nasceram os seguintes filhos: Maria Lúcia,
Teresa Cristina, Rosa Maria, Maria das Graças, Ana Catarina, José Mário e
Carmem Virgínia Montenegro Sá Barreto.
Antes de constar no trabalho de Augusto
Duque, o pesqueirismo é citado n’A Voz de
Pesqueira, edição de aniversário de 20 de outubro de 1946, onde, para
justificar o aumento do preço da tabela de anúncios, foi escrito: “Mantendo-se
este órgão de imprensa somente por pesqueirismo, por abnegação à terra [...]”.
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| Desembargador Augusto de Souza Duque. Retrato: Leite, s/d, TJPE. |
Augusto Duque nasceu em Pesqueira, em 1918,
formando-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1944, onde posteriormente
atuou como professor assistente. Nomeado desembargador em 1956, chegou à
presidência do Tribunal de Justiça de Pernambuco em 1965 e assumiu o cargo de
corregedor-geral em 1983. Como escritor, deixou significativa contribuição para
a área jurídica e para o pesqueirismo, sobretudo com a obra Documento sobre o
Agreste, considerada um clássico sobre a temática. Filho do também ilustre
pesqueirense Gumercindo Saraiva Duque, o “Duque do Norte”, Augusto Duque foi um
dos principais intérpretes e defensores do ideal do pesqueirismo ao longo do
século XX.
Coube ao ilustre pesqueirense, o
desembargador Augusto Duque, a missão de detalhar em seus escritos o
pesqueirismo em suas nuances. Na obra Documento
sobre o Agreste, escrita em 1947, ele explica que os “estudos tiveram uma
iniciativa e um estímulo pessoais, animaram-se no fogo sentimental que me fez
valorizar e querer fazer jus à descendência dos antigos donos do agreste.” Cabe
registrar que Duque era descendente do capitão-mor Manuel José de Siqueira,
fundador de Pesqueira.
Mas não é só isso que explica o vínculo tão
forte com Pesqueira. Como bem deixa claro, a fonte foi seu pai, o tabelião
Gumercindo Saraiva Duque, que, sob o pseudônimo de Duque do Norte, escreveu o
folheto A Cidade de Pesqueira em
1920, publicado em 1922. Reeditado em 1980, por ocasião do Centenário de
Pesqueira, Augusto Duque escreveu um apêndice sobre o pesqueirismo.
Na segunda e na terceira estrofes do livro de
Gumercindo Saraiva Duque, assim está escrito:
“Se existem
para o homem
Horas de
felicidade,
Que mesmo na
alta velhice
Sente viva a
mocidade,
É quando um
dia na vida,
À sua Pátria
estremecida
Ele jura
lealdade.
Pesqueira é
a minha pátria
Querido
torrão natal
Amo-a acima
de tudo
Jurei a ela
ser leal.”
Nas palavras de Augusto Duque, nessa
declaração de amor a Pesqueira está o manifesto do que o professor Sá Barreto
definiria como pesqueirismo. Este seria muito maior do que sentimentos,
porquanto é um movimento de ideias para fortalecer o patriotismo municipal,
enquanto elemento celular que forma a grande pátria. Afinal, o Brasil, como
nação, surge a partir dos municípios, as chamadas pátrias municipais.
De acordo com Duque, o pesqueirismo é a
“manifestação de amor telúrico que faz sentir viva a mocidade, mesmo quando ela
já se foi; que faz voltar a ser menino, com os encantos dessa fase, sufocando
dores que acompanham a vida, em permanente reconstituição proustiana, onde tudo
é recordação querida.”
O ilustre pesqueirense Potiguar Matos, na
crônica As velhas garrafas, publicada no Diário de Pernambuco em 1º de março de
1979, com a maestria tão própria de seus escritos, assim definiu o
pesqueirismo: “a dor, a alegria, a saudade e o orgulho da terra pequena,
fincados, como um punhal no coração, nos acompanhando pelas andanças do mundo,
vasto mundo que os trilhos da Great Western sugeriam à nossa adolescência
sequiosa.”
Diante do exposto, o pesqueirismo nasceu como
expressão de amor e saudade, assim como é possível perceber na criação do
professor Sá Barreto e nas palavras de Augusto Duque e Potiguar Matos — três
filhos que precisaram deixar seu torrão natal para construir a vida e a
carreira profissional no Recife. Contudo, jamais esqueceram a sua amada
Pesqueira.
O grande momento do pesqueirismo deu-se por ocasião
do Centenário de Pesqueira, quando a união de ilustres pesqueiristas, a partir
do final da década de 1970, começou a organizar as festividades que ocorreram
em 1980. Dessa geração de ouro, podemos citar: Potiguar Matos, Luís Wilson,
Nélson Barbalho, Augusto Duque, Everardo de Almeida Maciel, Waldemir de
Oliveira Lins, Oton Augusto de Almeida, Pe. José Maria da Silva, Pe. Eduardo
Valença, Luiz Neves, Francisco Neves, Jarival Cordeiro do Amaral, Severino
Melo, Nélson Valença, Sílvio Lins, Aloísio Falcão, Nivaldo Burgos, Pedro Santa
Cruz, José Florêncio Neto, Givanildo Paes Galindo, José Carlos Freire, Moacir
Brito de Freitas, Laurene Martins, Eugênio Maciel Chacon, José Figueiredo de
Matos, Rinaldo Jatobá, Gilvan de Almeida Maciel, Luís Cristovão dos Santos, Nair Falcão, Djanira Silva, Zuleide Siqueira e Odete
Andrade.
Na atualidade, falando do ponto de vista da
preservação histórica, é referência o trabalho do historiador Marcelo O.
Nascimento com o projeto Pesqueira
Histórica, cuja missão, há 15 anos, é a divulgação do pesqueirismo, para
que se mantenha vivo e duradouro, mesmo com todas as dificuldades da
contemporaneidade.
Ao que se soma o rabiscador destas linhas,
por meio da página Pesqueira Lendária e
Eterna e dos projetos pedagógicos Pesqueira
Nossa Gente, Nossa História (2025) e Pesqueira
das Letras: à luz da palavra dos seus literatos (2026), elaborados com o
intuito de valorizar a história e a memória de personalidades pesqueirenses,
levando-as até as escolas da rede municipal de ensino para inspirar as novas
gerações e manter viva a chama do pesqueirismo como sentimento de pertencimento
e amor à nossa terra.
Ser pesqueirista é muito mais do que ter
nascido em Pesqueira; é ter por ela um amor devotado sendo seu filho por certidão
ou adoção, é ter a certeza de que a partir dela amadureceu para a vida e teve
seu espírito formado. Ser pesqueirista é ter enraizada dentro de si a alma de
uma terra e de seu povo, representada em cada pedaço de chão pela história,
pelo casario antigo, pela cultura, pelas artes, pela música, pelas letras e
pelas tradições do povo Povo Xukuru.
Por fim, ser pesqueirista é acreditar na
força do pesqueirismo como fonte de união entre todos que amam esta terra, para
lutarmos pelo seu desenvolvimento, seja em qualquer área de atuação — educação,
cultura, artes ou política — sem revanchismos de qualquer natureza, pondo de
lado as divergências pelo bem maior, que é o soerguimento da nossa pátria
querida, nossa terrinha Pesqueira.


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