sábado, 19 de abril de 2025

D. CARMINHA FREITAS: PIONEIRA E PROTAGONISTA

D. Carminha Freitas em 1944
Foto: Mário Paulo Freitas (Facebook)

Família 

Maria do Carmo Magalhães de Freitas Melo, popularmente conhecida como D. Carminha Freitas, nasceu em Pesqueira no dia 14 de maio de 1914. Filha do capitão Abílio Rodrigues Pereira de Freitas (Fazenda Cacimba de Paus, Pesqueira, 19/02/1880 – Pesqueira, 04/10/1950), proprietário e comerciante, e de Júlia Magalhães de Freitas (Pedra, 1880 – Pesqueira, 05/03/1975) que casaram em Pesqueira no dia 12/10/1907 e foram pais de 4 filhos: Cincinato, Eunice, Maria do Carmo e Armando Magalhães de Freitas.

Neta paterna do capitão José Rodrigues Pereira de Freitas (proprietário da Fazenda Cacimba de Paus na região do distrito de Salobro em Pesqueira) e de Thereza Pérpetua de Jesus Freitas “a Jovem”. Neta materna de Tito Magalhães da Silva Porto e Maria Cavalcanti de Medeiros.

Severino Melo e Carminha Freitas (1946)
Foto: Mário Paulo Freitas (Facebook)

Severino, Carminha, D. Júlia, Pe. Siqueira,
 e os filhos da esquerda para a direita:Tereza Cristina,
Maurício, Mário Paulo e Marne (1956). 
Foto: Mário Paulo Freitas (Facebook)












D. Carminha Freitas casou civilmente em Pesqueira no dia 15 de junho de 1946 com Severino Ferreira de Melo, nascido em Buíque aos 11 dias do mês de janeiro de 1921. Filho do oficial das forças públicas do estado Pedro Ferreira de Melo (Salobro, Pesqueira, 04/05/1893) e de Cristina Monteiro de Melo (Sítio Pintada de Salobro, Pesqueira, 14/07/1900). Neto paterno de Gerino Ferreira da Costa e Ignês Virgens de Melo. Neto materno de Belarmino Marques da Silva e Maria Madalena Monteiro.

Severino Melo era comerciário e foi chefe da firma P. Brito & Cia. Figura de respeito, cidadão honrado foi muito querido juntamente com a sua família pela sociedade pesqueirense que como reconhecimento o elegeu vereador para o legislatura de 1951 a 1955.

O casal Severino e Carminha tiveram 5 filhos todos criados sob os princípios e valores morais cristãos no lar da família localizado na histórica Rua Zeferino Galvão. São eles: 1 – Tereza Cristina Magalhães de Freitas Melo (Pesqueira, 19/07/1947); 2 – Marne José de Freitas Melo (Pesqueira, 18/07/1948); 3 – Mário Paulo de Freitas Melo (Pesqueira, 17/11/1949); 4 – Maurício José de Freitas Melo (Pesqueira, 10/01/1951); e 5 – Francisco José de Freitas Melo (Pesqueira, 19/02/1956).


Secretária Municipal e Prefeita

Sede da prefeitura até a década de 1970

D. Carminha Freitas começou a trabalhar na Prefeitura Municipal de Pesqueira provavelmente no inicio da década de 1940. As fontes pesquisadas mostram-na como Secretária Municipal a partir de 1945, ao que consta a primeira mulher a exercer essa função, numa época em que não havia os secretários com pastas específicas como na atualidade. Tão somente existia um único secretário para auxiliar e substituir o prefeito quando houvesse necessidade.


É por isso que D. Carminha Freitas tornou-se a primeira mulher a assumir a Prefeitura de Pesqueira em 5 de fevereiro de 1946 diante do pedido de exoneração do prefeito Dr. Lídio Paraíba (18/12/1945 – 05/02/1946). Permaneceu como prefeita em exercício por 14 dias até a nomeação do bacharel João Arruda Marinho dos Santos pelo interventor do estado, José Domingues da Silva. Arruda Marinho pede afastamento em 8 de agosto de 1946 e D. Carminha Freitas volta a ser prefeita por mais 13 dias até o retorno de Arruda Marinho em 21 de agosto daquele ano.

Fac-símile do Diário Oficial com a designação
para assumir a prefeitura (09/08/1946)

O terceiro momento em que foi prefeita em exercício deveria ser por 30 dias a partir de 23 de dezembro de 1946 diante do pedido de afastamento para tratamento de saúde do prefeito Cel. Urbano Ribeiro de Sena que havia substituído Arruda Marinho em 16/11/1946. Entretanto, esse período durou apenas 9 dias, pois o interventor nomeou em 2 de janeiro de 1947 como prefeito Eugênio Maciel Chacon que ficaria no cargo até 31 de julho do mesmo ano.

Porquanto, foram 32 dias como prefeita em exercício, o curto período não tira o brio e os méritos de D. Carminha Freitas, a grande pioneira da política pesqueirense que assumira num momento conturbado da política nacional que marcava o período de transição democrática após o Estado Novo, fase em que não havia eleições e os prefeitos eram nomeados, por isso que Pesqueira teve tantos chefes do poder executivo em tão pouco tempo.

Um dado interessante é que quando assumiu a prefeitura em fevereiro de 1946 iria completar 32 anos e ainda era solteira, pois, só viria a casar em junho do mesmo ano. Passados quase 80 anos do feito, ainda é difícil mensurar a importância desse momento da nossa história, sobretudo, quando pensamos em uma época onde o modelo patriarcal ainda era muito forte na sociedade, tendo D. Carminha, talvez até sem ter dado conta, quebrado tabus e paradigmas.           

Prova disso, é que Pesqueira só voltaria a ter uma mulher sentada na cadeira de prefeita com a eleição de Cleide Maria de Souza Oliveira em 2008, ou seja, 62 anos depois de D. Carminha Freitas. Vindo a ser eleita na sequencia Maria José Castro Tenório em 2016.

Por fim, nesse tópico vale registrar que Cilene Martins de Lima eleita vice-prefeita em 2024, a segunda mulher a ocupar o cargo, e que desde o último dia 4 de abril está como prefeita em exercício, tornou-se a quarta mulher na história pesqueirense a ocupar o cargo maior do executivo municipal.


Vereadora

Diploma de Vereadora

Nas eleições de 3 de outubro de 1955, foi eleita vereadora pelo Partido Republicano com 7,7% dos votos válidos, recebendo 320 sufrágios nominais de um total de 4.923 que foram apurados no pleito.

Aos 41 anos D. Carminha Freitas conseguiu ser eleita à primeira vereadora não só de Pernambuco, mas do Nordeste. Sua eleição representa um marco por simbolizar a abertura de espaços políticos para mulheres em uma época de predominância masculina, o que vem diminuindo ao longo dos anos, mas que ainda é muito marcante na política brasileira.

Na Câmara de Vereadores tomou posse em 10 de fevereiro de 1956, grávida do seu 5º filho que nasceria 9 dias depois. Formavam o legislativo municipal os seguintes edis: Enedino de Freitas (presidente), Amaury de Brito (vice-presidente), Luiz Rocha (1º secretário), Albérico Soares, Dr. Petronilo de Freitas, Antônio Soares de Macedo, Josué Bezerra Leite e Maviael Correia. O suplente José Miranda Primo assumiria o mandato a partir de 10/02/1958 em razão da renúncia de Amaury de Brito.

Os seus primeiros requerimentos apresentados nessa sessão foram: 1 – votos de pesar pelo falecimento do prefeito de Sanharó, Heronides Nunes de Arruda; 2 – votos de solidariedade e congratulações ao governador Cordeiro de Farias pelo aniversário de 1 ano do seu governo; 3 – votos de aplausos à administração do prefeito Manuel Tenório de Brito, pela sua boa vontade em solucionar os problemas mais urgentes da cidade e dos distritos.

Fazer história era o forte de D. Carminha Freitas, foi também a primeira mulher a ocupar um cargo na mesa diretora da Câmara sendo sua 2ª secretária no biênio 1956/1957 e 1ª secretária entre 1958/1959.

Eleita pelo PR depois passou a integrar os quadros do Partido Socialista Brasileiro (PSB), não disputou novo mandato, mas permaneceu atuando na politica municipal até meados de 1966, quando ocorreu a reformulação partidária em face do surgimento do bipartidarismo decorrente do regime militar a mesma perdeu os gostos pela política partidária.

Pois bem, para termos ideia da grandiosidade desta eleição de 1955 é que Pesqueira só voltaria a ter uma mulher ocupando um cargo eletivo com Maria Carmita Freitas Maciel, eleita vice-prefeita na chapa de João Araújo Leite que obteve 9.619 votos no pleito de 15/11/1988. D. Carmita Maciel foi candidata à vereadora nas eleições de 03/10/1992, porém não obteve êxito ficando na suplência.

A segunda mulher a ser eleita vereadora foi Maria Isabel de Araújo Barros (Isabel da Lobal) que obteve 767 votos no pleito de 1º/10/2000. Ou seja, 45 longos anos separaram a primeira da segunda eleição de uma mulher para o legislativo municipal. Para constar foram eleitas na sequência de Isabel da Lobal: Arinete Bezerra Aciole 2008, 2016 e 2024; Valéria Alves, 2016; Rochevania Rocha, 2020 e 2024; Izabela Lins 2020; Raniele Lopes da Silva, 2020 e 2024.

Desde a sua instalação como Conselho Municipal após o advento da República em 1892 até o último pleito de 2024, apenas 7 mulheres foram eleitas para compor o legislativo municipal em seus 132 anos. O que demonstra o pioneirismo de D. Carminha Freitas quando conseguiu seu mandato em 1955.


O Comício de Mulheres

Charge publicada no DP
em 1º/11/1972

Outro grande ato da atuação política e cidadã de D. Carminha Freitas foi quando reunida com outras mulheres organizou o histórico e pioneiro Comício de Mulheres, realizado na Praça D. José Lopes no domingo à noite do dia 22 de outubro de 1972. 

O ineditismo foi tão grande que virou notícia no Diário de Pernambuco e na revista carioca Manchete Fatos & Fotos. Nas palavras de D. Carminha Freitas citadas por Inaldo Sampaio na sua coluna do Jornal do Commercio (1992): “Avisamos nas ruas que só mulheres poderiam participar e o aviso foi cumprido à risca. Não se viu um só homem na praça.”

O comício reuniu donas de casa, professoras, comerciárias, estudantes e na oportunidade discursaram 26 mulheres pesqueirenses, entre elas estava à professora Diamantina de Freitas, que por sinal era a única mulher concorrendo a uma vaga no legislativo no pleito que ocorreu em 15 de novembro daquele ano, que registrava um total de 27 candidaturas, sendo 26 masculinas para vereador em Pesqueira.

Apesar de apoiarem as candidaturas do MDB, o movimento foi além do lado partidário tanto é que o candidato a prefeito Dr. Petronilo de Freitas não foi convidado a participar. O foco durante as três horas de comício foram à defesa de ideias quanto à afirmação, a valorização e a emancipação feminina.


A Cruzada Feminina


Pesqueira, 31/03/1990 - 17º aniversário da Cruzada Feminina
com a entrega de Comendas à Velha Guarda. Da esquerda para
a direita Zezinho Amaral, José Duque, Nildinha, Francisquinha,
Erivaldo Jatobá, Carminha Freitas e Dulce.
C

Do ponto de vista político partidário o movimento não logrou êxito nas urnas, todavia, a semente foi plantada por essas mulheres politizadas e a frente do seu tempo. Passada as eleições voltaram a se reunir para organizar uma fundação que pudesse trabalhar com os pobres e para os pobres, e cooperar com os poderes públicos constituídos.

Os encontros semanais aconteciam no prédio localizado na Praça D. José Lopes, nº 110, onde funcionava o consultório de Dr. Carlito Didier Pitta, que gentilmente o cedeu, pois era um pesqueirense simpático as causas populares. Após reuniões e preparações e contando com mais de 100 sócias foi fundada em 31 de março de 1973 a Cruzada Feminina de Pesqueira.

D. Carminha Freitas fez parte da sua primeira diretoria executiva como 1ª Secretária. Também foram membros do corpo diretivo da instituição as seguintes mulheres pesqueirenses: Presidente: Paula Frassinetti Alcântara do Amaral; Primeira vice-presidente: Maria Lúcia Santos Jatobá; Segunda vice: Aldemira Mourcout do Rego Barros; Primeira Secretária: Maria do Carmo Freitas de Melo; Segunda Secretária: Acilda Cavalcanti Assis; Primeira Tesoureira: Maria Salomé de Freitas Valença; Segunda Tesoureira: Alzira Barros; Diretoras: Maria de Freitas Correia e Eloá Araújo Cavalcanti. Conselho Deliberativo - Presidente: Alda Sousa Didier; Vice-Presidente: Maria Auxiliadora Soares Costa; Secretária: Maria Auxiliadora Vanderlei Freitas; Vogais: Irmã Gomes, Sebastiana Brito, Diamantina Galvão Barbosa, Nair Falcão, Judite Oliveira, Elizabete Guimarães, Isolina Sobral, Elisa Barbalho Falcão, Nazaré Melo Bezerra, Odete Andrada, Abigail Cavalcanti, Maria da Glória Cavalcanti, Maria de Lourdes Aragão, Maria de Lourdes Guimarães.

Fica o registro como homenagem a estas mulheres que sem dúvida, foram à frente do seu tempo por ideias, pensamentos e ações.


 O filho vereador

A política sempre fez parte da família Freitas, o pai de D. Carminha Freitas, o Capitão Abílio de Freitas foi Conselheiro Municipal (1910/1913); seu esposo, Severino Melo foi vereador na legislatura anterior a ela entre 1951 e 1955.

No final da década de 1980 quem entrou para a política foi seu filho Francisco Freitas que se elegeu por duas vezes vereador de Pesqueira pelo PFL (1989/1992 – 1993/1996) e teve o apoio irrestrito da sua mãe que mesmo septuagenária fez campanha porta a porta para pedir votos.

Mas, não foi só pelo filho que D. Carminha Freitas se engajou, em ambas as eleições apoiou os candidatos a prefeito João Leite (1988) que tinha como companheira de chapa D. Carmita Maciel, sua amiga de longas datas, e Evandro Maciel Chacon (1992).


 A cidadã e a democrata

Severino Melo e Carminha Freitas
Foto: Mário Paulo de Freitas (Facebook)

D. Carminha Freitas, foi sem sombra de dúvidas, símbolo da força, da garra e da coragem feminina como mãe, esposa e política. Fiel na defesa do que acreditava manteve-se como eleitora assídua até os seus mais de 90 anos de idade, exercendo com altivez a cidadania e a democracia durante toda a sua vida.

Na sua humildade revelou ao jornalista Inaldo Sampaio em 1992: “Acho que fiz história em Pesqueira por duas razões. Primeiro, pela organização do comício das mulheres, depois, porque depois de mim nenhuma outra mulher conseguiu eleger-se vereadora”.

Não ache que fez história D. Carminha Freitas, a senhora de fato o fez e que toda a sociedade pesqueirense possa reconhecer e aplaudir suas conquistas, e que permaneça como legado e inspiração de vida o seu pioneirismo e protagonismo.

Maria do Carmo Magalhães de Freitas Melo faleceu prestes a completar seus 98 anos de vida em 10 de março de 2012 na sua residência na Rua Zeferino Galvão. Severino Melo, seu companheiro de uma vida faleceu 15 dias depois em 25 de março aos 91 anos. Foram quase 66 anos de um lindo matrimônio.

Nossa homenagem a memória de D. Carminha Freitas e os votos de que sua história permaneça viva.

Por Fábio Menino de Oliveira

 

 Referências Bibliográficas

Cruzada Feminina de Pesqueira. Cruzada Feminina: História da Cruzada

Diário Oficial do Estado de Pernambuco – edições de 06/02/1946; e 09/08/1946.

Diário de Pernambuco – edições de 09/08/1946; 25/02/1956; 01/03/1958; 21/10/1972; 1º/11/1972; e 21/07/1979.

Family Search Maria do Carmo Magalhaes de Freitas, “Brasil, Pernambuco, Registro Civil, 1804-2023”

Jornal do Commercio. Aos 78 anos, Dona Carminha retoma o gosto pela política – Inaldo Sampaio, 1992.

_________________. Carminha, a pioneira – Paulo Augusto, 18/03/2012.

TSE. Resultados das Eleições. https://www.tre-pe.jus.br/eleicoes/eleicoes-anteriores

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A HISTÓRIA DE UMA FOTO


Ao olharmos para esta fotografia publicada no livro Ararobá, Lendária e Eterna datada provavelmente de 1927, onde ao centro temos o antigo Casarão da Família Didier Pitta do alto de sua imponente arquitetura com fachada tendo porta central e 6 janelas. À esquerda, vemos a casa comercial do Coronel João do Rego Araújo Maciel que de acordo com Luís Wilson chamava-se "A Barateira" recebendo posteriormente o nome de "Loja Paulista" com 6 portas frontais.  

Nessa outra fotografia de 12/11/1939, já é possível ver a loja A Sertaneja, duas casas à esquerda do casarão.


Sobre o Cel. Araújo Maciel (Brejo da Madre de Deus/PE, 08/12/1861 – Pesqueira/PE, 13/08/1941), era casado com Antônia do Rego Maciel, irmã do Comendador José Didier, de quem além de cunhado era primo. Veio para Pesqueira em 1896 ou 1897. Na cidade estabeleceu pontos comerciais para venda de tecidos, estivas, padaria, depósito de açúcar e armazém de compra e venda de algodão. Sendo um deles o que estava localizado no nº 99 da Praça D. José Lopes. Além de ter construído mais de 100 casas.

Para compreender o que aconteceu com a casa comercial do Cel. Araújo Maciel voltamos ao ano de 1937 quando José de Almeida Maciel através dos seus escritos no jornal A Voz de Pesqueira defendia a reorganização das ruas da cidade para melhorar o fluxo de pessoas, dinamizar o comércio e porque não dizer fazer com que Pesqueira ficasse mais bela com casas alinhadas e ruas que se cruzassem permitindo acesso aos bairros.

José de Almeida Maciel
Nessa perspectiva, em relação à Praça D. José Lopes, o mesmo propõe duas possíveis modificações. A primeira seria a abertura de uma rua transversal cruzando a praça na direção norte sul dando acesso entre as ruas Santa Rita (atual Eliseu Elói que inicia ao lado da antiga padaria ABC em direção ao bairro do Xucurus) e a Barão de Cimbres (descida para a Baixa de São Sebastião), passando a referida avenida do lado da casa do Comendador José Didier.  

A segunda proposta caso não houvesse condições financeiras da prefeitura seria a abertura de uma rua transversal apenas do lado esquerdo da praça com a aquisição da Loja Paulista nº 99, do lado do casarão, com a possibilidade da casa contigua nº 98 onde seria construído o Mercado Público.


Fotografia de Severiano Jatobá Neto (1924 ou 1925)

José de Almeida Maciel, como célebre pensador não apenas da historiografia pesqueirense contribuiu com seu notório saber no plano urbanístico da cidade para melhorar a comunicação entre as ruas. Se observarmos a foto de Severiano Jatobá Neto do ano de 1924 ou 1925 que mostra a Rua Barão de Cimbres, é possível perceber que não existia acesso à Praça D. José Lopes, uma vez que a Rua Maestro Thomaz de Aquino tinha formato de T e com isso o crescente bairro de São Sebastião não se ligava ao centro da cidade.

Nas palavras de José de Almeida Maciel (1987) “essas aberturas de becos, travessas e ruas em confrontação com outras e de que indicamos aqui as principais, são de necessidade imprescindível e até inadiável”. No entanto, ainda demoraria certo tempo para que algo começasse a ser feito, para ser mais exato foram 13 anos.

O Álbum da Administração do Prefeito Ésio Magalhães Araújo (1947-1951) trás na sua página 37 a seguinte informação: “Durante o exercício de 1950, a Prefeitura dispendeu, com indenizações, a quantia de Cr$ 116.276,00. (...) para abertura de uma transversal, ligando a Praça D. José Lopes à Rua Barão de Cimbres, a edilidade abriu um crédito especial na quantia de Cr$ 184.100,00 para indenização do prédio nº 99, sito àquela praça e que foi pago apenas no final do exercício a quantia de Cr$ 94.026,00”.

Prefeito Ésio Araújo
De acordo com o referido álbum na página 48, após ser indenizada a antiga casa comercial foram executados pela prefeitura em 1951 os serviços de demolição, remoção dos entulhos, rebaixamento do terreno, construção de calçadas, assentamento de meio-fio e feita à encanação da linha de água. Com isso, nessa parte da obra foram investidos Cr$ 207.517,70, excetuando o que já havia sido gasto na indenização do imóvel.

Um adendo é que pela descrição não consta que tenha sido feita a pavimentação da nova rua que recebeu o nome Travessa Frederico do Rego Maciel, até a atualidade uma importante artéria de ligação entre o centro da cidade e o bairro de São Sebastião. 

Vale salientar, que a demolição da casa comercial foi para o crescimento e o melhoramento urbano de Pesqueira, graças à ideia de José de Almeida Maciel e da iniciativa do prefeito Ésio Araújo, um homem de visão que serviu ao município com grandeza e espirito público deixando como legado de sua administração inúmeras obras que serão motivo de artigos posteriores.

Travessa Frederico do Rego Maciel, 16/04/2025
Por tudo isso, acreditamos que a ideia e o pensamento de um homem não morrem com ele permanecem como seu legado para posteridade e foi isso que aconteceu com José de Almeida Maciel e Ésio Araújo, cujas memórias devem ser lembradas e celebradas por todos aqueles que amam e querem ver Pesqueira sempre conduzida às alturas.

Por Fábio Menino


Referências Bibliográficas

Álbum da Administração de Ésio Magalhães Araújo, 1948-1951. Recife, Oficina Tipográfica do Diário da Manhã, 1951.

Maciel, José de Almeida. Ruas de Pesqueira. Apresentação de Gilvan de Almeida Maciel. Recife, CEHM, 1987.

WILSON, Luís. Ararobá Lendária e Eterna. CEPE/Pref. de Pesqueira. Recife: 1980, p. 52.


domingo, 13 de abril de 2025

O CASARÃO DA FAMÍLIA DIDIER PITTA

Casarão da Família Didier Pitta - Pesqueira, 12/04/2025

O casarão secular da família Didier Pitta, localizada na Praça Dom José Lopes, nº 111, no centro do município de Pesqueira trás consigo o simbolismo e o legado de uma das famílias mais tradicionais por sua influência social e no desenvolvimento econômico da cidade, notadamente através da fundação da Fábrica Rosa, uma das pioneiras na produção de doces e conservas que desempenhou papel crucial para que Pesqueira se tornasse um dos grandes centros industriais do estado de Pernambuco na primeira metade do século XX.

Embora detalhes específicos sobre sua arquitetura e o ano de sua construção, sabemos que desde 1883 era a residência do comendador José do Rego Maciel Didier (Brejo da Madre de Deus/PE, 19/03/1862 – Pesqueira/PE, 23/01/1942) e de sua esposa Maria Alfina Didier “Dona Maroca” (Brejo da Madre de Deus/PE, 09/11/1859 – Pesqueira/PE, 29/12/1961).

Nesta casa, o casal criou os seus 12 filhos: 1) José do Rego Maciel Filho (1883-1904), solteiro, falecido aos 19 anos em João Pessoa quando estudava para cursar Direito no Recife; 2) Praxedes do Rego Maciel Didier (1886-1976), fazendeiro, casou 2 vezes, a primeira com Marieta do Rego Barros Didier (1891-1918) e a segunda com Maria Rosa de Oliveira Didier (1898-1988); 3) Antônio Maciel Didier (1887-1958), casou 2 vezes, a primeira com Dulce Maia Maciel Didier e a segunda com Letícia Fragoso Didier; 4) Manuel Maciel Didier (1893-1952), casado com Argentina Moreira Didier (1896-1978); 5) Marieta Didier Pitta (1894-1994) casada com o coronel José Pitta (1892-1966); 6) Ana Maciel Didier Brito (1896-1971) casada com o Dr. Joaquim de Brito (1893-1949); 7) Dr. Joaquim Maciel Didier (1897-1961), médico, casado com Dolores Junqueira Meireles (1907-2003), residiam em São Gonçalo do Sapucaí/MG; 8) Dr. João do Rego Maciel Didier (1898-1991), cirurgião-dentista, casado com Nair Cavalcanti Pina Didier (1901-1983); 9) Maria Isabel Maciel Didier (1900-1939), casada com Carlos Benevides Barbosa Vianna (1892-1952); 10) Luís Maciel Didier (1904-1991), casado com Tereza Valença; 11) Maria José Maciel Didier, falecida aos 12 ou 13 anos; e 12) Didier do Rego Maciel Neto, sem informações.

Após o falecimento do comendador José Didier a sua esposa D. Maroca permaneceu na residência como matriarca da família. Era uma distinta senhora, católica praticante, assim como o seu esposo, exercera por mais de 50 anos a presidência do Apostolado da Oração contribuindo efetivamente em obras de caridade da Paróquia de Santa Águeda e da Diocese de Pesqueira. Respeitada por todos, permaneceu até o seu centenário lucida e ajudando os que mais precisavam, tanto é que na comemoração do seu aniversário eram distribuídos roupas e brindes.

A sua data natalícia era uma grande celebração por parte da sua família que a esta altura já se espalhara por outras cidades pernambucanas, sobretudo, na capital e até por outros estados. Uma foto revela o quanto à família se unia em torno da sua matriarca, nela é possível ver cinco gerações. Dona Maroca está sentada, por trás o seu filho Antônio Maciel Didier; ao seu lado direito, a sua neta Maria Dulce Didier e Silva (esposa de Gilberto Brito e Silva); ao seu lado esquerdo sua bisneta Maria Christina Didier Silva (esposa de Fernando Lauria Santos); e o seu trineto Eduardo Silva Santos.

O registro fotográfico da matriarca em frente ao histórico casarão deve datar entre 1956 e 1958, visto que Maria Christina casou em 19/02/1953 e seu filho Eduardo aparenta ter entre 2 e 3 anos, assim como Antônio Didier faleceu em 25/03/1958.

Dito isto, abro um parêntese para dizer que na postagem anterior deste site sobre o Dr. Carlito Didier Pitta havia mencionado que José e Marieta Pitta, haviam se mudado do sobrado, atual Palácio Episcopal, para o referido casarão. Todavia, após a divulgação do artigo rebemos a informação do colaborador Paulinho Muniz que o casal foi residir na Praça Dom José Lopes, só que do outro lado no número 102, onde hoje mora Gilvan Sá Barreto, proprietário das lojas Isabella. Porquanto, D. Marieta Pitta passa a residir na citada casa depois da morte de sua mãe em 1961.

Foto: acervo de Marcelo Nascimento

Foi nessa residência, conforme mostra na foto acima, que no início de 1919, José e Marieta Pitta receberam como hóspedes as irmãs Dorotéias que vieram instalar o Colégio em Pesqueira por designação da Revma. Madre Júlia Cassina, Superiora das Dorotéias no Brasil, que atendeu um pedido do bispo D. José Lopes. Foram elas: Madre Maria Arminda Rodrigues (superiora), Irmã Maria Antonieta Zanoni (secretária da Madre Provincial), Irmã Elvira Maria, Irmã Cristovam Maria, Carmem Gentil (postulante) e Zulmira Braga (juniarista).

Casa de Gilvan Sá Barreto, antiga residência  de José e Marieta Pitta - Pesqueira, 12/04/2025

Vale salientar que o Colégio Santa Dorotéia foi fundado em 12 de abril de 1919 funcionando em dois chalés vizinhos à Fábrica Peixe, alugados por D. José Lopes. A ala leste do atual prédio foi inaugurada em 3 de junho de 1927, passando o colégio a funcionar na nova sede. Quanto a ala oeste foi inaugurada em 5 de agosto de 1936. Desta histórica e importante instituição de ensino que celebrou recentemente os seus 106 anos foram benfeitores com vultosos donativos as famílias Didier, Brito e Valença.

Chalés onde foi instalado o Colégio Santa Dorotéia em 12/04/1919
Foto: acervo de Marcelo Nascimento

Colégio Santa Dorotéia no inicio da década de 1940

A acolhida, a generosidade e a hospitalidade era uma característica nata da família Didier Pita, quer seja no famoso Casarão de D. Maroca Didier, quanto na antiga residência de sua filha D. Marieta Pitta, também exemplo de senhora respeitada pela sociedade pesqueirense e que assim como a sua mãe chegou ao centenário.

Portanto, nestas linhas o registro histórico deste casarão uma das mais importantes construções da nossa amada Pesqueira e que graças ao atual proprietário José Mauro Barros permanece com a sua belíssima arquitetura preservada revelando o legado e a história da família Didier Pitta.

Por Fábio Menino de Oliveira


Referências Bibliográficas

Diário de Pernambuco – edição de 21/02/1956.

Family Search - Maria Alfina de Oliveira Mello Didier (1859–1961) • Pessoa • Árvore familiar

Pesqueira Histórica –  O Colégio Santa Doroteia de Pesqueira | Ph#036

WILSON, Luís. Ararobá Lendária e Eterna. CEPE/Pref. de Pesqueira. Recife: 1980, p. 52.                                                                               


                                                                                                                                       
             


domingo, 6 de abril de 2025

DR. CARLITO: PEDIATRA DE ALMA, MÉDICO DO POVO

 

Dr. Carlito Didier Pitta

Em meio às belezas naturais da cidade de Pesqueira encravada no sopé da Serra do Ororubá, viveu um homem cuja vocação ultrapassava a medicina. Dr. Carlito Didier Pitta não foi apenas um pediatra — foi um guardião da infância, um amigo das famílias humildes e um símbolo de cuidado verdadeiro, fazendo da medicina muito mais que vocação, mas um verdadeiro sacerdócio.

Família 

Carlito Didier Pitta nasceu na residência dos seus pais, o coronel José Pitta (Pesqueira/PE, 24/01/1892 – Recife/PE, 03/02/1966) e de Marieta Didier Pitta (Pesqueira/PE, 16/11/1894 – 07/08/1995), localizada na Rua Duque de Caxias, Pesqueira/PE, às 17 horas do dia 1º de março de 1914. Eles haviam casado civilmente em Pesqueira no dia 20 de abril de 1913.

O industrial e gerente da Fábrica Rosa, Cel. José Pitta e sua esposa
D. Marieta Didier Pitta

De acordo com o pesquisador Marcelo Nascimento é possível que Carlito tenha vindo ao mundo num dos sobrados coloniais construídos pelo capitão-mor Manuel José de Siqueira e que a partir de 1919 foi transformado por D. José Lopes no Palácio Episcopal e que fora a vivenda de José e Marieta antes de se mudarem para a Praça D. José Lopes, nº 102, local que é conhecido até os dias atuais como a “Casa de Marieta Pitta”, cuja fachada e arquitetura belíssima permanecem preservadas pelo comerciante José Mauro Barros, a quem saudamos pela louvável iniciativa.

No sobrado ao centro vemos um casal na varanda que segundo o Pe. Eduardo
Valença tratava-se de José e Marieta Pitta que ali residiram antes de virar
Palácio Episcopal e onde teria nascido o menino Carlito.

Dito isto, transcrevo a seguir um resumo da ascendência genealógica de Dr. Carlito: Neto paterno do português Francisco José Pita e de D. Joana de Araújo Pita. Neto materno do comendador José do Rego Maciel Didier (Brejo da Madre de Deus/PE, 19/03/1862 – Pesqueira/PE, 23/01/1942) e de Maria Alfina Didier “Dona Maroca” (Brejo da Madre de Deus/PE, 09/11/1859 – Pesqueira/PE, 29/12/1961).

Comendador José Didier e sua esposa D. Maria Alfina Didier 

Bisneto pelo comendador José Didier do coronel Didier do Rego Maciel (Brejo da Madre de Deus/PE, 01/04/1838 – Pesqueira/PE, 15/05/1936) e de D. Guilhermina Benvinda de Albuquerque “D. Vidinha” (Brejo da Madre de Deus/PE, 24/06/1836 – Pesqueira/PE, 21/02/1909). Bisneto por Maria Alfina do Major Firmino de Oliveira Melo e de D. Josefa Cândida de Melo.

Do casal José e Marieta Pitta nasceram cinco filhos: 1) Carlito Didier Pitta, solteiro; 2) Humberto Didier Pitta (Pesqueira/PE, 20/10/1915), casado com Maria Ivone Marinho Falcão Pitta (Brejo da Madre de Deus/PE, 1º/05/1923 – Recife/PE, 11/05/1983), pais de Carmem Dolores, Ana Elisabete, Maria Teresa, Maria Cristina, José Heráclio, Antônio Carlos e Humberto Falcão Pitta; 3) Hilda Didier Pitta Marinho (Pesqueira/PE, 22/12/1916), casada com o Dr. João Arruda Marinho dos Santos (Brejo da Madre de Deus/PE, 22/09/1908), prefeito de Pesqueira, deputado estadual e secretário de estado, pais de Antônio Paulo, Lúcia, José Augusto, Carlos Alberto e Francisco Luís Pitta Marinho; 4) Irene Didier Pitta Pontual (Pesqueira/PE, 21/03/1921), casada com o Dr. Silvio Amorim Pontual (Recife/PE, 06/01/1917 – 04/01/2011) , pais de Marcelo, Regina, Helena, Virgínia, Aline Maria, Dulce e Eduardo Pita Pontual; e 5) Fernando Didier Pitta (Pesqueira/PE, 12/04/1925 – Recife/PE, 11/04/2003), casado com Terezinha de Jesus Cavalcanti Pitta (Pesqueira/PE, 23/02/1927 – 30/12/2014), sem sucessão.

Segundo o historiador Luís Wilson (1980), o nome familiar Didier teve origem após a fundação da Fábrica de Doces Rosa em 1906, quando os irmãos comendador José Didier e Antônio do Rego Maciel Didier “Tonhé” passaram a usar o nome do pai como sobrenome para homenageá-lo. Surgindo a partir daí uma das famílias mais tradicionais pesqueirenses.

Formação

     Cursou o ensino primário e secundário como aluno externo no Colégio Diocesano Cardeal Arcoverde entre os anos de 1920 a 1928 que ficava localizado no sobrado ao lado da Câmara de Vereadores e que se mudara em 1928 para o palacete de seu tio avô Tonhé Didier, onde atualmente é a prefeitura municipal. Foram seus professores o Dr. Eduardo Correia da Silva, Monsenhor José Landim, Pe. Adalberto Dobbere, José Francisco dos Santos, Mariano de Souza Neto,  Pe. Urbano de Sá Carvalho, Pe. Antônio Duarte Cavalcanti e Monsenhor João Pires Araújo. Foi contemporâneo no antigo colégio que deu origem ao Colégio Cristo Rei dos celebres Luís Wilson, Wilson Chacon, Jurandir Brito, Moacir Brito, Ésio Araújo, Othon Almeida, Frederico Maciel, entres outros. Além do irmão Humberto e dos primos Walter, Milton e André, filhos de Praxedes Didier.

Colégio Diocesano Cardeal Arcoverde

        Terminado os estudos na sua cidade passa a residir em Recife em 1929 ingressando no tradicional e histórico Ginásio Pernambuco, localizado na Rua da Aurora no bairro de Santo Amaro, fundado em 1825 e que atualmente é a mais antiga instituição de ensino em atividade no país.

Ingressou em 1934 na histórica Faculdade de Medicina do Recife, fundada em 4 de abril de 1915, cujo prédio localizado no bairro do Derby foi construído em 1927 e que à época do seu ingresso era dirigida pelo Prof. Dr. Otávio de Freitas, uma das figuras mais proeminentes da medicina pernambucana. 

Não logramos êxito em localizar a data da sua formatura, devendo ter sido entre 1939 e 1940. Todavia, sabemos que escolheu como especialização a pediatria que mais do que uma vocação tornou-se seu sacerdócio de vida. 

De acordo com Luís Wilson (1980) depois de formado foi trabalhar na cidade de Tupã, no estado de São Paulo, o que deve ter ocorrido no inicio da década de 1940, pois foi nomeado em 27 de novembro de 1944 pelo Interventor Fernando Sousa Costa como prefeito interino de Tupã por 34 dias em substituição ao prefeito licenciado Walter Montanha Peixoto da Silva, o que demonstra que já gozava da confiança da sociedade desta cidade paulista.

Vida Profissional

 De volta a sua terra natal assume como médico do Serviço Público Estadual em 1º de junho de 1945. Ao longo da sua vida profissional prestou relevantes serviços a medicina pernambucana e pesqueirense sendo nomeado para atuar nas seguintes funções: Médico Assistente de Clínica Médica no Hospital Regional de Pesqueira (15/06/1946); Médico de Dispensário (01/061947); Médico Higienista (1957 – 1963); Médico Pediatra Auxiliar (01/02/1964); e Médico Pediatra Assistente (07/01/1970).

Dr. Carlito está no centro da foto de paletó cinza com a mão direita no bolso,
quanto a seu pai José Pitta é o penúltimo à direita.

Exerceu a função de Tesoureiro da Sociedade de Medicina de Pesqueira, fundada para organizar o III Congresso Médico Estadual, promovido pela Sociedade de Medicina de Pernambuco, realizado em Pesqueira entre 20 e 22 de dezembro de 1951. Compunham a diretoria o Dr. Lídio Paraíba (presidente) e o Dr. Arlindo Carneiro (secretário).

Coordenou a II Semana de Medicina Preventiva realizada em Pesqueira no mês de outubro de 1957 em parceria com o Departamento Nacional de Endemias Rurais sendo feita uma campanha contra as endemias da bouba, tracoma e helmintose. Como ações dessa iniciativa podemos citar a transformação do Posto de Endemias Rurais em Posto Polivalente, foram visitadas 7.889 habitações no município sendo recenseadas 25.560 pessoas, das quais foram medicadas 1.553 que estavam doentes e vacinadas 1.378.

Como especialização participou de vários congressos cabendo destacar o Curso Nestlé de Atualização em Pediatria, realizado em Recife no dia 04/06/1957 e que contou com a participação de 50 pediatras de vários estados do nordeste sob a coordenação do Prof. Dr. Álvaro Serra de Castro, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Tendo participado novamente do mesmo curso desta vez em Brasília/DF entre os dias 18 a 24 de setembro de 1966.

Por todo esse trabalho de dedicação e abnegação foi agraciado com o Diploma da Ordem do Ororubá em solenidade realizada no auditório da Rádio Jornal de Pesqueira no dia 6 de junho de 1971. Esta comenda foi dada pela Associação dos Antigos Alunos do Cristo Rei (AAACR) que na oportunidade homenageou outras 13 personalidades com relevantes serviços prestados a sociedade pesqueirense.

Posto de Puericultura: o sacerdócio e o legado

Pelo que já fora exposto nas linhas anteriores já merecia todas as homenagens e o reconhecimento a este grande pesqueirense. Todavia, Dr. Carlito Didier Pitta foi além como médico humanitário e combatente da mortalidade infantil. Em 1950 fundou a Liga de Proteção à Maternidade e à Infância de Pesqueira da qual foi seu presidente por toda a vida.

Após fundar a liga começou as tratativas com o prefeito de Pesqueira Ésio Magalhães Araújo (1948 – 1951) sobre o desejo de construir um Posto de Puericultura para proporcionar assistência social à infância e à maternidade no que concerne a acompanhar o pré-natal das gestantes e o desenvolvimento das crianças com orientação sobre alimentação, higiene e preparo físico.

Posto de Puericultura no processo final de construção em 1951

O prefeito Ésio Araújo abraçou a ideia e como gesto destinou a quantia de Cr$ 24.000,00 (vinte e quatro mil cruzeiros) dos seus próprios vencimentos para que a manutenção inicial do posto. Também conseguiu junto ao Governo do Estado através do Secretário de Saúde Dr. Orlando Parahym e do Serviço Nacional de Proteção à Maternidade e à Infância o financiamento de Cr$ 200.000,00 (duzentos mil cruzeiros) para a construção do prédio. Igualmente somaram-se aos esforços o bispo D. Adelmo Machado e a Sociedade Leão XIII que doou Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros).

A obra do tipo “A” foi iniciada em fins de 1950 com instalações amplas contendo consultório, ambulatório, farmácia, copa, lactário, cantina, almoxarifado, depósito, sala de espera, sala de pesagem, tesouraria, secretaria e serviço dentário. O local escolhido foi o bairro da Pitanga em pleno desenvolvimento populacional e que abrigava, sobretudo, famílias de operários e trabalhadores rurais, ou seja, uma comunidade carente e necessitada de assistência social.

O funcionamento do Posto de Puericultura começa em 1º de agosto de 1952 e dele Dr. Carlito tornou-se diretor e benemérito até a sua morte, numa dedicação e abnegação única, tanto é que notas publicadas no Diário de Pernambuco nas décadas de 1950 e 1960 fazem questão de mencionar que o pediatra de alma e médico do povo pesqueirense custeava as despesas do posto com recursos próprios evitando o seu fechamento.

Sobre as dificuldades financeiras para manutenção do posto faz-se míster ouvir as palavras do Dr. Carlito na Coluna de Pesqueira escrita por Luiz Neves para o Diário de Pernambuco em 20/01/1958:

“Ao findar-se o exercício de 1956, foi constatado um saldo de Cr$ 74.463,40, que passou para o exercício de 1957. Esse saldo, uma decorrência de auxílios recebidos naquele exercício, nos permitiu a atravessar o ano passado, sem falar no auxilio de Cr$ 60.000,00 recebido do Departamento Estadual da Criança. Sucede, todavia, que a população necessitada dos serviços do Posto, aumenta de ano para ano; enquanto isso, os auxílios que recebemos do Estado e da Prefeitura não foram pagos um só mês no ano de 1957. Sem nenhuma causa que justifique isto, foram sustadas tais contribuições mensais, ou sejam, da Prefeitura, dois mil cruzeiros, e da LBA a mesma quantia. Mesmo assim, fazendo acrobacias, pudemos levar avante, milagrosamente, sem que o serviço assistencial do Posto, sofresse solução de continuidade. Quanto ao milagre a que me refiro, resume-se simplesmente nisto: os dois médicos do Posto, ganham, apenas, mensalmente, Cr$ 500,00, o que não dá nem pra pagar a gasolina do automóvel para os conduzir até ali, diariamente, e as gratificações que percebem os quatro esforçados funcionários são tão irrisórias que não vale a pena citar. Ao todo são seis funcionários. Pois bem: a despesa desse pessoal em 1957 foi de apenas Cr$ 32.150,00! Por aí você pode tirar o resto!”

        Vê-se o desabafo de alguém que lutou incansavelmente para que o Posto de Puericultura se mantivesse firme e em funcionamento atendendo a população mais carente do município. Um adendo é que o mesmo passou a se chamar Posto de Puericultura Ésio Araújo a partir de 26/02/1955 numa justa homenagem ao ex-prefeito recém falecido.

No antigo Posto de Puericultura funciona atualmente a Associação Comunitária Cristo Rei.
Foto: Marcelo Nascimento

            Sobre as ações sociais desenvolvidas no Posto de Puericultura no atendimento à população cabe destacar as seguintes: Distribuição de leite gratuito para as crianças; Higiene pré-natal e infantil; Lactário e Cantina para nutrição de gestantes e lactantes; Serviço de refeição as crianças assistidas pelo posto; Escola de Arte Culinária; Escola de Corte e Costura; Escola de Arte Decorativa e Escola Mista Noturna de Alfabetização de Adultos.

            Nota-se que o trabalho de Dr. Carlito à frente do Posto de Puericultura não cuidava apenas da saúde, mas havia uma preocupação com a educação pelos cursos ofertados. Prova disso é que o mesmo frequentava e desenvolvia ações nas escolas do município distribuindo exemplares de cartazes sobre a alimentação infantil.

            Numa iniciativa pioneira, defendia que a alimentação deveria fazer parte do programa de ensino de todas as escolas. Em artigo da colunista Zenaide Barbosa (Diário de Pernambuco, 11/09/1971) o médico pesqueirense diz que: “Poderá não haver dinheiro para a compra dos alimentos, porém ficará a noção certa de como deverão se alimentar”. E conclui falando: “Sou de opinião que todo movimento na comunidade deve começar na escola e, assim, melhorar as condições de vida do próximo, pois este é meu lema, na qualidade de médico e pessoa humana”.

          Como se pode notar em suas palavras foi um homem a frente do seu tempo e por merecimento recebeu como homenagem póstuma dar o nome a instituição de ensino que fora construída em 1994 e cujo funcionamento começou em 21 de setembro de 1995 na gestão do prefeito e também pediatra Dr. Evandro Mauro Maciel Chacon, outro grande exemplo de atenção, cuidado e dedicação com as crianças e o povo pesqueirense.

            O Centro de Atenção Integral à Criança – CAIC construído para prestar assistência integral em educação e saúde às crianças e adolescentes, bandeiras de uma vida de luta, recebeu o nome de Espaço Educacional Dr. Carlito Didier Pitta para dizer do orgulho que as comunidades da Pitanga e da Central, e porque não dizer de toda a sociedade pesqueirense devotavam aquele que foi como já disse anteriormente o pediatra de alma e o médico do povo.

Espaço Educação Dr. Carlito Didier Pitta - CAIC, inaugurado em 1995

Morte

 Dr. Carlito faleceu no Hospital Dr. Lídio Paraíba em Pesqueira, às 4h35 do dia 19 de março de 1979. Sua partida ainda prematura podemos assim dizer, porque tinha apenas 65 anos de idade foi sentida por toda Pesqueira e no estado de Pernambuco tendo sido aprovado na Assembleia Legislativa em 21/03/1979 um voto de pesar proposto pelo Deputado José Fernandes.

Seu Posto de Puericultura que depois de sua morte recebeu seu nome, assim como a principal avenida do bairro da Pitanga, na verdade, era um espaço de esperança. Seu consultório, um templo de empatia. Sua vida, um exemplo de humanidade vivida no dia a dia, sem alarde, com humildade.

Dr. Carlito foi daqueles que curam muito além do corpo. Seu legado permanece no carinho de quem o conheceu, na memória dos que ele cuidou e na inspiração que deixou para a medicina feita com alma e coração.

Pesqueira nunca o esquecerá, porque há médicos que passam pela vida — e há aqueles que permanecem nela, como parte da própria história de um povo.


 Por Fábio Menino de Oliveira


Referências Bibliográficas

Álbum da Administração de Ésio Magalhães Araújo, 1948-1951. Recife, Oficina Tipográfica do Diário da Manhã, 1951.

A Província – edição de 05/12/1929.

Correio Paulistano – edição de 25/11/1944.

Diário da Manhã – edição de 13/12/1934.

Diário de Pernambuco – edições de 15/06/1946; 04/05/1950; 12/08/1950; 01/11/1950; 21/11/1951; 13/05/1952; 28/08/1952; 06/04/1955; 04/02/1956; 21/02/1956; 25/09/1957; 24/01/1958; 29/01/1958; 06/03/1958; 08/07/1959; 03/09/1968; 14/05/1969; 19/03/1970; 26/05/1971; 02/06/1971; 11/09/1971; e 19/04/1980.

Diário Oficial do Estado de Pernambuco – edições de 27/04/1945; 15/06/1946; 02/08/1952; 08/07/1959; 07/09/1961; 1º/02/1964; 05/11/1965; 28/07/1966; 15/03/1967; 07/01/1970; 24/09/1971; e 22/03/1979.

Pesqueira Histórica –  A família Didier de Pesqueira e os fundadores da Fábrica Rosa | Ph045

WILSON, Luís. Ararobá Lendária e Eterna. CEPE/Pref. de Pesqueira. Recife: 1980, p. 52.

            

           Agradecimento

Ao amigo Marcelo Nascimento do Pesqueira Histórica pela colaboração nas fotografias.