A
aparição de Nossa Senhora da Luz, no Sítio Guarda, em Cimbres, Distrito de
Pesqueira
Milagre ou coincidência?... estranha ocorrência aconteceu com o repórter
Eu nunca fui de acreditar em milagres, não. Não que eu seja um cético. Até que em outubro de 1985 aconteceu comigo um fato que me livrou de morrer dentro da própria casa de minha filha, onde costumeiramente me hospedo, quando aqui estou; o que me livrou das dúvidas que mantinha sobre a ocorrência de fatos sobrenaturais.
Sobre o que vou narrar, e existe muita gente na minha rua que poderá atestar minhas declarações, vou contar tim-tim-por-tim-tim como aconteceu e tem ligação com a aparição de Nossa Senhora da Luz, no Sítio Guarda, em Cimbres. Vocês é que irão deduzir, depois da leitura do meu depoimento, se se trata de milagre ou coincidência.
O PRESENTE DA NORA
Minha norinha, que se chama Neyde, muito enlevada em fé e em milagres, sabendo das minhas andanças, com um currículo nada abrandador no que se refere a desastres de automóveis – já levei duas "viradas", em 30 anos de política e 40 de jornalismo! pois já fraturei quatro costelas, concussão da bacia, pancada [trecho ilegível/rasurado], deslocamento de um pé e "outras cositas mas"; isto no primeiro acidente automobilístico que aconteceu aqui mesmo, entre Pesqueira e a Vila de Ipanema, no dia 28 de dezembro de 1967, acabando internado no hospital desta cidade, "Dr. Lídio Paraíba", onde fui assistido pelos médicos Jurandir Alves de Melo e Genivaldo Jatobá, na época, prestes a se formar. A segunda "virada" ocorreu na periferia de Vitória de Santo Antão, mesmo em frente ao posto de gasolina, exatamente à altura da via que dá acesso à cidade de Glória do Goitá e tive como companheiro nesse desastre meu amigo e companheiro de campanhas políticas, de saudosa memória, vereador Juracy Bezerra Cavalcanti, falecido em outubro de 1972, tão precocemente. Tal fato se deu, também, em dezembro de 1971, na passagem do ano, depois de duas santas noites de comemorações, bebemorando tal data, quando inventei de levantar acampamento, às cinco da madrugada, numa ressaca dos diabos, para visitar a mulher e os filhos em Olinda; na ocasião era o prefeito local, no segundo mandato. Pois bem, não deu outra: para não colidir com um tremendo "Scania" que saía da estrada de Glória, não tive outra opção; desenvolvendo uns 80 quilômetros, puxei para o acostamento... a "rural" que conduzia deu cinco cambalhotas para ficar paradinha num valado de canas-de-açúcar. Eu e meu companheiro Jura, terminamos no hospital de Vitória, socorridos que fomos pelo Dr. Ayrton Maciel, de Belo Jardim. Por incrível que pareça nada de grave aconteceu comigo e com o companheiro, somente escoriações.
Minha nora Neyde impressionada, depois deste último desastre, me deu de presente uma medalhinha em que aparecia uma santa e que ela, com todo respeito e convicção, me afirmou:
"Olhe, painho (é como me trata), use sempre essa medalhinha que é de Nossa Senhora da Luz, de muitos poderes, para proteger sempre o senhor".
Olhei para a medalhinha, sem demonstrar meu ceticismo a respeito de milagres, mesmo porque jamais iria desgostar minha primeira norinha (é casada com o filho mais velho, o Walter), examinando-a: era a efígie de uma senhora em cuja cabeça, além do halo, era toda rodeada de estrelinhas.
Para que conversar muito? Achei o presente muito interessante e a Neyde me fez guardar a medalhinha numa das seções da minha carteira de cédulas, tornando o seu presente inseparável, convindo afirmar que a partir desse momento, nunca mais me aconteceu desastres, a não ser o fato a que vou me reportar no decorrer deste depoimento.
O CONVITE DO VEREADOR RAIMUNDO DE ZÉ NOVO
Tenho por hábito, logo após o almoço, pois geralmente me acordo às 2/3 horas da madrugada, escrevendo, lendo ou estudando, e assim, pôr em dia o déficit de sono; o que nunca me fez mal. Muito pelo contrário, como vocês irão deduzir.
Pois bem, num sábado de setembro de 1985, eu estava mesmo disposto a tirar minha gostosa deforeta. Estava com o amigo, vereador Raimundo Bezerra, em sua casa, programando os meios de ação para impulsionar a candidatura a deputado estadual do conterrâneo Juracy Barbosa “Dúi” (posteriormente Dúi desistiu em favor do atual deputado Fausto Freitas), quando Raimundo me contou que tinha uma propriedade no Sítio Cajueiro, bem pertinho do Sítio Guarda, onde certa vez apareceu uma Santa, Nossa Senhora da Luz, às duas garotas, nos idos de 1936. Eu era um garoto de nove anos, mas me lembro do rebuliço que o caso provocou nos meios católicos da terra e no Estado. E, ipso facto, instintivamente, lembrei-me logo da medalhinha que Neyde me dera de presente, e outra coincidência que me acontecera 8 meses antes.
Um dos meus filhos, ex-candidato a monge carmelita, que se rendeu ao "ajeitamento" de uma tremenda e bonita galega da mesma altura dele, um metro e 74, advogado e bancário (Waldilson Neves), pesqueirense da gema e que me deu um neto, o André, que é exatamente um xeroque de sua mãe, ao tocar no assunto do aparecimento da santa, em Cimbres, com ele, qual não foi a minha surpresa quando o Didi (seu apelido) me confessou que seu jovem amigo de infância, colega do grupo escolar e do Cristo Rei locais, o atual arquiteto Aprígio Gusmão, filho do já falecido Luiz Gusmão, lhe entregara um "diário" escrito, num caderno escolar, em que a irmã Adélia, a garotinha na época que vira a Santa, fazia suas confissões a respeito do assunto que tanto impressionara, quando eu era um garoto, também chamada por batismo de Maria da Luz exatamente a medalhinha que jamais me soltara da carteira de cédulas.
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Continua no próximo número abril —
Na edição anterior dizia eu como consegui o "diário" de Maria da Luz, (atualmente irmã Adélia), através de um filho, o Didi (Waldilson Neves) que, por sua vez, o me recebera das mãos do seu amigo, o arquiteto Aprígio Gusmão, e uma medalhinha que me dera a nora Neide, para me proteger de uma série de "viradas" de carro de que fui vítima, anteriormente, por sinal de N.S. da Luz, exatamente o nome da mocinha do Sítio Guarda – Cimbres, que com a companheira Conceição, em 6 de agosto de 1936, tinham visto –, num lugar de difícil acesso, Nossa Senhora, o que causou um reboliço que já se viu!, na época, aqui em Pesqueira.
Segundo Aprígio Gusmão, meu filho era a pessoa indicada para estudar o tal "diário", advogado, redator aceitável, bem como pesquisar e escrever sobre o assunto. Curioso como sou, pedi o caderninho ao filho que não se fez de rogado e me presenteou. Li, reli, trili, sem acreditar – que Deus me perdoe! – naquelas ocorrências. Como frisei na reportagem anterior, disse para o vereador Raimundo Bezerra, atual presidente da Câmara Municipal desta terra, que desejava, naquela manhã de sábado, 5 de outubro de 1985, ir com ele até o sítio de sua propriedade situado nas proximidades do povoado de Cajueiro, onde se descortina, vis-à-vis, o despenhadeiro, a gruta do Sítio Guarda, onde os acontecimentos da aparição tiveram lugar.
– "Compadre (é a maneira dele falar) o convite tá feito. Hoje é dia de pagamento do meu pessoal lá em nosso sítio... Aproveite a "rebordosa" comigo num tem "camuflage" e... vamos lá".
Disse ao amigo Raimundo que antes, porém, teria de avisar minha filha Valdleusa que o nosso clã, na intimidade a chama de "Leleu" (esposa de Zê Uhênio, da serraria) e que trabalha no cartório da minha irmã Lia –, que naquela tarde não haveria o meu costumeiro "dormitaço", pois iria à Vila de Cimbres.
– "Papai, tenha cuidado, pois o senhor sabe, a estrada de Cimbres tem muitas curvas perigosas", – advertiu-me ela.
Com o edil Raimundo de Zé Novo, em demanda do Sítio Cajueiro, andei, virei, mexi, sem me lembrar de minha adorada e costumeira madorna pós almoço; pois fazia um bando de dias que eu estava com a ideia fixa da aparição da santa, incubada na cabeça e sabendo que o companheiro Raimundo era gente legal, fui com ele.
ANTES, PORÉM…
Devo contar que ao aceitar o tal convite, por duas vezes viera a Pesqueira, aparelhado de máquina fotográfica, gravador, preparado para fazer uma reportagem "in loco” sobre a aparição de N. Senhora, no Sítio Guarda. Embora de carro, não sei explicar porque não fui. Havia sempre algo a me impedir de cumprir a missão que eu, voluntariamente, me impusera. E da vez que me encontrava completamente desaparelhado como repórter, vi-me na contingência de aceitar o convite de Raimundo Bezerra -, mas era para fazer política, na ocasião, em torno do nosso candidato a deputado estadual Juracy Barbosa (Dui), que desistiu em favor de Fausto Freitas.
E quem é essa menina Maria da Luz e sua companheira
Conceição que viram, em 1936, a aparição de N. Senhora? Na reportagem anterior
já falei do estardalhaço que a "visão" de que foram protagonistas
aquelas duas garotas, tinha causado na cidade de Pesqueira e do
"reboliço" que dom Adalberto Sobral fez, nos meios católicos, para
que todo mundo ficasse "quietinho", 'caladinhos... senão o tenente
Urtiga (?), Delegado de Polícia, prendia na hora, evitando, assim,
mistificações.
O CADERNINHO DE NOTAS DA IRMÃ ADÉLIA (Maria da Luz)
Maria da Luz, já no convento (Damas Cristãs – Recife) escreveu num caderno escolar uma espécie de memórias esparsas, do ocorrido. É bom frisar que a atual religiosa, quando entrou no convento, filha de agricultores pobres, não conseguiu estudar naquele estabelecimento de ensino. Ficou com o segundo ano primário, que lhe proporcionara sua mãe, a professora municipal Auta Teixeira, no mesmo grau cultural de quando diz ter visto a santa. Sempre trabalhou no convento em atividades de cozinha, rouparia e nas capelas dos conventos por onde esteve. Após o Concílio Vaticano II é "que foi alertada para a necessidade de evangelizar" e atualmente presta seus serviços assistenciais aos favelados do bairro da Torre (Recife).
Dos padres que prestavam serviços religiosos na Diocese (1936) o único que investigou acuradamente o acontecido, junto às duas crianças, foi o alemão José Kehrle, já falecido que até escreveu um livro sobre o assunto, na época secretário geral da Diocese de Pesqueira. Baseado nos seus escritos foi que a revista católica alemã "Konnesreuthes Jahrbuck" publicou notícias detalhadas a respeito das meninas que viram a santa.
A página 23 do caderninho de Maria da Luz (irmã Adélia)
ela escreveu: "... começa a perseguição de Lampião no sertão, as notícias
alarmavam, o medo crescia, era para mim um grande sofrimento. As notícias eram
alarmantes... o povo se angustiava pois eles (os cangaceiros) estavam descendo
(da Paraíba) para Pernambuco. Até que chegou o dia do ataque (pelos celebrados)
sequestrando o fazendeiro sr. Rogério de Brito (lpanema). Fomos obrigados a
sair de casa para ir dormir no mato três noites. Quatro famílias (da
vizinhança) se juntaram e cinco rapazes e três moças juntos, rezávamos o terço
com muito fervor. Mamãe nos acompanhou com uma criancinha (irmão de Maria da
Luz) de apenas três meses, que faleceu dias depois. Papai não saiu de casa.
Disse que tinha confiança (e fé) no Coração de Jesus e foi nos buscar na mata
(levando-nos para casa) dizendo que "daqui ninguém sai. Vamos morrer
juntos."
... "Lembro-me que pedi muito (a Deus) para entrar no Convento. Também suplicamos que Deus mandasse um jeito para acabar (nossa) aflição, — isto acontecia no mês de maio de 1936. E as perseguições, cangaceiros, continuavam e nos traziam terríveis notícias..."
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Continua no próximo número —
Na segunda reportagem desta série (que anunciadamente seria de apenas três, mas, que serão quatro), para não deixar incompleto o relato documentário de Maria da Luz (hoje Irmã Adélia), continuo, hoje, a conclusão do seu impressionante depoimento.
“PARECE QUE FOMOS VOANDO...”
"Papai vai plantar na fazenda onde sua mãe morava, na sua (dele) parte de terra. Me convida para plantar milho. Eu gostava muito desses passeios. Aceitei (o convite) e partimos (no dia seguinte) muito cedo a cavalo. Me sentia muito feliz em acompanhar meu querido pai. Terminado o trabalho, almoço, depois fui convidada a dar um passeio à casa de meu tio Mesquita. Tomamos o caminho e, de lado, minha vista deu com uma choupana (somente) pela metade.
Ali morava uma família agregada ao trabalho do meu tio.
Me aproximei e encontrei uma mocinha de uns 14 anos, maltrapilha e (tive pena
dela) logo convidei-a para vir morar comigo e trabalharmos juntas as duas.
Ela aceitou logo. Na volta me acompanhou e (a partir daí)
começamos a trabalhar juntas. Procurei logo repartir minhas roupas com ela. Foi
quando comecei a sentir a necessidade de saber costurar para vestir a mocinha
(chamava-se Maria da Conceição) que arranjara...
A partir daí, comecei a me preocupar com ela, pois me ajudava (muito) nos trabalhos caseiros. Eu precisava ganhar (dinheiro) para comprar o necessário, pois via as dificuldades que papai e mamãe passavam. Aproveitei a semana em que mamãe foi para a casa (fazenda) dos seus, me deixando tomando conta de nossa casa.
Combinamos (eu e a mocinha, Maria da Conceição), partirmos no dia seguinte e começarmos (nosso) o trabalho. Era um dia de quarta-feira – 6 de agosto de 1936. Quando todo o trabalho estava feito, os balaios cheios de sementes de mamona (que estávamos colhendo) encontramos (os balaios) em um lugar e subimos em uma pedra que (donde) se avistava lá embaixo a fazenda que havia poucos dias os cangaceiros (de Lampião) tinham passado.
Começamos a ter medo.
Começou a neblinar.
De repente, em nós se apoderou uma (estranha) força, que
não sei explicar, nem compreendíamos, ficamos mergulhadas em outra atmosfera e,
esquecendo o medo, subimos (mais ainda) o monte (despenhadeiro), sem sentir os
espinhos (alastrado), os abismos, parece que fomos (como que) voando!...
Desde esse dia, que nunca mais pudemos trabalhar (em paz)
porque as visitas e as romarias (eram demais); começaram e passamos três meses
sem ter tempo até de nos alimentar.
Aconselharam-nos que deveríamos ir a Pesqueira (sede da
Diocese) e contar ao Bispo (Dom Adalberto Sobral), que (na oportunidade) nos
interrogou...
– "Foi um sofrimento. Ninguém acreditava em
nós". Quem fala é dona Auta, genitora da Irmã Adélia (Maria da Luz).
"Meu marido chegou a ser preso só porque foi na cidade dizer que as
meninas tinham visto a santa. Agora, eu espero que Deus nos proteja e, graças a
Deus, o bispo, dom Palmeira, já veio aqui").
(Conheço a professora municipal Auta, desde o tempo, eu
mocinho, secretário da Prefeitura, e ela é uma mulher competente e muito
consciente).
"Foi numa dessas visitas (é do "diário" da
Irmã Adélia) ao sr. Bispo Dom Adalberto Sobral, que me encontrei com o padre
alemão, José Kehrle, que se interessou pelo caso, que tomou nota de todos os
acontecimentos".
"EU SOU A GRAÇA"
No depoimento das videntes Maria da Luz e Maria da Conceição, ao padre alemão, (já falecido), José Kehrle, quando o sacerdote (era o Secretário do Bispado na época), perguntou-lhes qual teria sido o primeiro diálogo entre elas e Nossa Senhora, no relato do padre está escrito (publicado na revista católica alemã "Konnestreuthes Jahrbuch") que, na manhã do dia 6 de agosto de 1936, quando elas (Maria da Luz e Conceição, garotas de 13 anos) no Sítio Guarda (Cimbres) num local de acesso difícil, a ele, informaram-lhe que tudo começou quando Maria da Luz (Irmã Adélia) indagou de sua companheira:
– "E se Lampião aparecesse agora?..."
– "Nossa Senhora nos protegia" – respondeu,
convictamente, Conceição.
(Então aconteceu o que Maria da Luz (Irmã Adélia) nos
conta no seu diário, um modesto caderno escolar (xeroque publicado na última
edição), em nosso poder e que desejamos oferecer, como documentário, aos
interessados no assunto e que ficará como patrimônio do acontecido, lá, na
futura capela do Sítio Guarda):
"Chorávamos de medo. Começou a neblinar. De repente,
em nós, se apoderou uma estranha força, que não sei explicar, nem compreender;
ficamos mergulhadas em outra atmosfera e subimos mais ainda o despenhadeiro
(inóspito), sem sentir os espinhos (alastrado), os abismos, parece que fomos
voando!..."
Nesse instante, ambas estáticas, embevecidas, viram
aparecer uma senhora coberta com um manto azul e branco, carregando uma criança
nos braços, sorrindo para elas. Naquela "atmosfera", como se
estivessem "voando", a hoje Irmã Adélia, perguntou, admirada:
– "Quem é a senhora?!..."
E aquela senhora simpática, com um sorriso santo,
maternal, lhe respondeu:
– "Eu sou a graça".
Simplesmente. Era Nossa Senhora!...
Esse "bolo" da aparição, minha gente, já dura
51 anos, mais de meio século. E eu, que não acreditava naquilo. Encarava o fato
com certo ceticismo, era uma criança à época, tinha meus onze anos. E a
campanha contra o fanatismo, promovida pelo sr. Bispo era tremenda, acho que
isso me sequelou. Falava-se em diversas curas milagrosas aos doentes que
visitam o local da aparição. E eu... nem estou aí.
Sem acreditar, pois não!
Até que no dia 5 de outubro de 1985, um sábado, aconteceu algo de sobrenatural na vida de um repórter do "hinterland" pernambucano. Nada mais, nada menos, que o degas aqui, eu!!!
—
Conclui no próximo número —
O DESABAMENTO
Naquele sábado, 5 de outubro de 1985, estávamos, eu e o vereador Raimundo Bezerra, em plena campanha política, no povoado de Cajueiro, distrito de Cimbres. Seriam dez horas da manhã e, a cavalo, nos dirigimos em demanda da propriedade do edil amigo, bem próxima ao Sítio Guarda, local onde, há 50 anos, em lugar inacessível, num penhasco, duas jovens campesinas tinham sido surpreendidas com a aparição de Nossa Senhora.
Do lugar onde nos achávamos, — uma colina, — Raimundo me
mostrou ao longe, cerca de uns 500 metros de distância, o local da gruta, onde
ocorrera a manifestação súbita da Virgem. Ceticamente, achei graça no
sentimento de fé demonstrado por Raimundo. Pra mim era uma ingenuidade, pois
desde criança, no ano da graça de 1936, eu fora condicionado a não acreditar no
ocorrido, pois o bispo à época, Dom Adalberto Sobral, proibira a seus fiéis tal
manifestação, pois entendia que se tratava tão somente de fanatismo.
Naquele instante, instintivamente, puxei da carteira de
cédulas, lembrando-me, por analogia, da medalhinha que me presenteara minha
nora Neyde Neves, com a efígie de N.S. da Luz, para que, andando sempre com
ela, me protegesse de desastres ou algo fatal para mim.
— "Foi ali, Luiz Neves, - apontou-me Raimundo, - que
as duas meninas viram a aparição da Virgem Santa, Nossa Senhora. Uma delas, que
hoje é freira, se chamava Maria da Luz, — me afirmara, momentos antes, o amigo.
Ipso facto, recordei-me do "Diário" da
irmã Adélia (Maria da Luz), atualmente religiosa do Convento das Damas Cristãs
(Recife) e que há quase um ano antes (1984) viera parar em minhas mãos, através
do meu filho Waldison (Didi) Neves. Retirei da carteira a medalhinha e fiquei por
momentos a fitá-la, guardando-a, novamente.
Seriam 13 horas (uma hora da tarde) quando terminamos
nossa missão política nas proximidades do Sítio Guarda, quando Raimundo me
convidou para regressarmos a Pesqueira.
No caminho da volta, ao passarmos na serrinha, demos uma
parada no Bar do "Papa", bem próximo ao Cruzeiro, para nos
deliciarmos com uma saborosa e bem manipulada "buchada", puxada a
"pitú" e rebatida, com toda "classe", com uma saborosa
"antarctica" bem geladinha, no "ponto". Terminado o ritual
boêmio-gastronômico, o ponteiro do meu relógio acusava quatro horas da tarde.
Como acentuei no texto contido na primeira reportagem
desta série, tenho por hábito, após o almoço, ouvir o noticiário do jornal da
tarde transmitido pela rede Globo, dormir; acordando-me por volta das 5 ou 6
horas da tarde, pagando, assim, as horas de sono, devidas pelo hábito pouco
comum de ficar acordado das 2 da madrugada até as sete/oito horas da manhã,
escrevendo, estudando, pesquisando ou lendo, por ser para mim, o melhor período
em que me encontro comigo mesmo, para percepção e externação de ideias.
Embora tendo a casa de minha mãe Blandina e das minhas
irmãs (13 de Maio, 85), durmo sempre na casa de minha filha Waldleusa
("Leleu"), na mesma rua, três casas depois, em direção à agência
local do INPS.
Ao chegar em casa, à tardinha daquele sábado, vi muita
gente curiosa à porta da casa de minha filha. De imediato senti que me
acontecera algo de anormal, pois muita gente estava com o ar de estupidificada.
No momento, no pensamento me apelei logo para minha santinha Nossa Senhora da
Luz, pela incolumidade dos meus familiares.
Uma senhora da vizinhança, meu cunhado, meus amigos ao me verem, a una voce, agitados, acorreram ao meu encontro, assim que saltei do carro e me diziam, atabalhoadamente:
— "Uma coisa horrível! A metade da casa desabou! Mas, tenha calma que graças a Deus, por milagre, não tem ninguém ferido!"
Sem querer ouvir mais nada, entrei na casa. Minha filha,
meu genro, meus netinhos, com lágrimas nos olhos, visivelmente impressionados
com o desastre, vieram ao meu encontro e me abraçaram emocionadamente; sei que
trocamos muitos beijos e abraços e a filha não deixava de repetir:
— "Papai! Graças a Deus o senhor estava ausente!
Venha ver como a metade da casa ficou! Venha ver que desastre
horrível!..."
E puxando-me por uma mão, (eu era como que, um autômato,
cheio de interrogações, completamente atordoado), segui-a até o local onde fora
o quarto que me servia de dormitório. Foi quando senti que escapara de morrer
(e bem morrido!), pois o fato acontecera, se muito fazia, há uma hora antes,
horário reservado à minha costumeira deforeta.
Então, vi o escangalho, o estrago: a linha mestra da
cumeeira, tinha caído com toda sua estrutura, - telhas, caibros, os escambaus!
- por cima da minha cama e da do meu netinho. Tal era o acúmulo de escombros
que o guarda-roupa e os demais móveis do quarto, ninguém via! Também, uma parte
da sala de jantar fora completamente destroçada, onde, segundos antes, ali
estavam minha filha, as duas netinhas e duas sobrinhas. Disse-me à filha que
momentos antes, algo como que instintivo, tinha alavancado sua vontade e daí
para a sala da frente fora questão de segundos, quando se ouviu o estrondo da
implosão.
MILAGRE OU... COINCIDÊNCIA?!...
Vivendo o impacto do ocorrido, passei mais de uma hora sem acreditar no que vira. Fora muita coincidência... ou um milagre? minha ida fortuita, improgramada, me levara para as proximidades do Sítio Guarda... onde aparecera a Santa... estava completamente atônito!
Já na casa de minha mãe Blanda, tomei um café bem forte,
fumei um cigarro e, de coração, dei graças a Deus por me ter saído, me tangendo
pro Sítio Guarda... Mas, pensei, eu tinha um agradecimento todo especial a
fazer: à Nossa Senhora da Luz, através da medalhinha que eu conduzia todas as
horas, todos os dias, comigo.
Sorrindo, por ter, milagrosamente, renascido, abri minha
carteira de cédulas para, olhando para efigie de N.S. da Luz, agradecer-lhe do
fundo do coração... Qual não foi minha decepção! A medalhinha, por incrível que
isto possa parecer, tinha desaparecido de minha carteira!... Mas, como?!... Sei
que estou relatando a história como realmente ela ocorreu. Perdera,
misteriosamente, a medalha de N.S. da Luz. Naquela evidência, fiquei
transtornado, completamente encucado!...
Sei que estou vivinho da silva, contando a história.
Tentara por duas vezes, munido de máquina fotográfica, gravador, etc., fazer a
reportagem sobre a aparição. Por motivos jamais por mim compreendidos, não pude
realizá-la! E quando, nem por sonho nisso pensava, lá estava eu, bem próximo do
local da aparição de N. Senhora... O que me salvara a vida!
MILAGRE OU... COINCIDÊNCIA?!... Por Deus, confesso,
jamais saberei explicar!
Apenas faço este depoimento que me sai sincera e
profundamente do coração...
"Cor ad cor loquitur", - o coração fala ao coração!
Vocês, meus irmãozinhos, que tirem as suas conclusões
pois ainda me encontro, - dois anos são passados, - naquela
"onda"....
Luiz Neves.
***
NOTA EXPLICATIVA
A presente publicação reúne, em um único artigo, a série de quatro reportagens de autoria do jornalista pesqueirense Luiz Neves, originalmente publicada no Jornal de Pesqueira, entre março e junho de 1987.
Intitulada “A aparição de Nossa Senhora da Luz, no Sítio Guarda, em Cimbres, Distrito de Pesqueira — Milagre ou coincidência?... estranha ocorrência aconteceu com o repórter”, a série apresenta, em forma de depoimento pessoal e reportagem, a experiência vivida por Luiz Neves em outubro de 1985, quando, durante uma ida ao Sítio Cajueiro, nas proximidades do Sítio Guarda, tomou contato mais próximo com a história da aparição de Nossa Senhora às jovens Maria da Luz, posteriormente Irmã Adélia, e Maria da Conceição, ocorrida em 6 de agosto de 1936, há 90 anos.
É importante destacar que, ao longo de toda a série publicada em 1987, a aparição é mencionada como Nossa Senhora da Luz, denominação utilizada nas reportagens e na tradição da época. Atualmente, a mesma devoção recebe o título de Nossa Senhora da Graça. A manutenção da denominação Nossa Senhora da Luz nesta série respeita, portanto, a forma como o acontecimento foi registrado originalmente pelo jornalista Luiz Neves, preservando a fidelidade histórica do documento.
Ao longo das quatro edições, o jornalista recupera elementos da história das aparições, apresenta trechos do caderno de memórias de Maria da Luz (Irmã Adélia) cuja cópia esteve em suas mãos, menciona os registros do padre alemão José Kehrle e narra as circunstâncias que o levaram, décadas depois, a aproximar-se novamente daquele acontecimento.
O ponto central do relato é o episódio ocorrido em 5 de outubro de 1985, quando Luiz Neves esteve nas proximidades do Sítio Guarda e, ao retornar a Pesqueira, descobriu que parte da casa onde costumava dormir havia desabado justamente sobre o quarto e a cama que ocupava. O próprio repórter relaciona a circunstância à medalhinha de Nossa Senhora da Luz que carregava consigo e deixa ao leitor a pergunta que atravessa toda a série: “Milagre ou coincidência?”
A força documental da série está também no fato de Luiz Neves não apresentar o episódio como uma conclusão definitiva. Ao contrário, embora profundamente impactado pelo acontecimento, ele reconhece não saber explicá-lo e entrega ao leitor a liberdade de formar sua própria interpretação. Ao final, reafirma que se trata de um depoimento sincero, marcado por uma experiência que, segundo suas próprias palavras, jamais conseguiu compreender inteiramente.
Esta publicação única preserva, portanto, a sequência original das quatro reportagens, reunindo um importante registro jornalístico sobre a Aparição de Nossa Senhora da Luz no Sítio Guarda, em Cimbres, e, ao mesmo tempo, um testemunho pessoal de Luiz Neves acerca de um episódio que permaneceu como uma das experiências mais marcantes de sua trajetória.
Por Fábio
Menino de Oliveira.
FOTOGRAFIAS
Autoria das reportagens: Luiz
Neves.
Série: quatro reportagens.
Fotografias: os registros da publicação original foram melhorados por IA.

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