sábado, 3 de maio de 2025

GERALDO UMBELINO: UM PESQUEIRENSE DE CORAÇÃO

 

O comunicador social, radialista e professor Geraldo Umbelino Freire nasceu no distrito de Riacho Doce em Caruaru/PE no dia 5 de dezembro de 1934. Caruaruense de nascimento, mas pesqueirense de coração recebendo o título de cidadão da princesa do agreste pernambucano que o adotou como seu filho em 1980.

Capitão Dadá e D. Mariinha. Foto acervo da família.

Filho de Umbelino José Freire (capitão Dadá) e Maria de Carvalho Freire (D. Mariinha). Seus irmãos: Maria do Socorro Freire Silva, Angelina Freire de Melo, Maria das Graças Freire da Silva, Maria de Jesus Freire de Castro (Zúi)  e Águeda Maria Freire (Dadá), todos in memoriam.

Chegou a Pesqueira no dia 20 de janeiro de 1950, numa sexta-feira à tarde quando vinha passando a procissão de São Sebastião. Veio acompanhar um tio que se mudara para Pesqueira e aqui já residia seu tio Aureliano Bomfim e a sua esposa Luísa, que era madrinha de Geraldo, e que já tinham uma boa representação na cidade.

Geraldo Umbelino na juventude. Foto acervo da família

Começou a trabalhar poucos dias depois na Mercearia Pereira com apenas 15 anos e como já tinha experiência, pois seus pais e tios tinham mercearia logo ganhou a confiança e o apreço do Sr. Luiz Pereira, o proprietário. E neste estabelecimento comercial passou 2 anos.

Ingressou como escriturário na empresa J. Freitas &Cia pertencente às Fábricas Peixe, trabalhando num dos barracões localizados na região do distrito de Mutuca. Nessa época, começou a construção da estrada que liga Pesqueira a Poção, e esses barracões tinham a finalidade de fornecer alimentação para os funcionários do campo da Fábrica Peixe, e outros eram para funcionários da estrada. Vale salientar que foi numa época de uma seca muito grande, e a companhia  J. Freitas fez um contrato com a União para fornecer alimentação e pagamento aos funcionários.

Após um curto período de tempo foi promovido a chefe e sob sua responsabilidade estavam mais 30 filiais para que pudesse fazer compras para abastecer os estoques de alimentos e também para efetuar os pagamentos, era comum o transporte de vultosas somas de dinheiro levados em sacos da cidade até os barracões onde os trabalhadores eram pagos.

Após 12 anos de trabalho como chefe na J. Freitas & Cia recebeu o convite em 1964 de Rossini Moura para exercer suas funções laborais como chefe de escritório da Rádio Difusora de Pesqueira, atual Rádio Jornal. Por sua experiência contábil e administrativa foi convidado em 1973, pelo gerente do setor de rádio da empresa, João Gomes Netto, e aceitou assumir a gerência da Radio Jornal em substituição a Ábner Niceias.

O período que assumiu a gerência da Rádio Jornal foi um dos momentos mais difíceis para empresa por questões financeiras. E conseguiu superar graças a sua habilidade e tática administrativa. Em trecho do Álbum Comemorativo dos 30 anos da Rádio Difusora de Pesqueira diz o seguinte: “Acima de tudo prestigia os seus comandados, e, com seu espírito jovem, dinâmico e de vibração colocou a RÁDIO DIFUSORA DE PESQUEIRA em posição invejável no hinterland pernambucano.”

Foram 20 anos dedicados a Rádio Jornal como gerente. Por ocasião da passagem do aniversário de 70 anos da emissora recebeu de Carlos Humberto (Diretor Executivo do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação) uma placa em sua homenagem com os seguintes dizeres: “Geraldo Umbelino. Obrigado por construirmos juntos essa história”.

Todavia, não foi só na comunicação que Geraldo Umbelino deixou um legado, em missão paralela a rádio após convite do diretor Paulo de Oliveira Melo passou a exercer o oficio de professor do ensino médio no Colégio Comercial de Pesqueira, onde havia sido estudante. Substituiu na instituição o professor e magistrado Dr. Ivo Isidoro de Assis.

Na década de 1970 além do Colégio Comercial lecionou no Colégio Cristo Rei e na década de 1980 atuou na Escola Professora Cacilda Almeida e no Centro de Educação Rural José de Almeida Maciel, antigo CERU e hoje EREMJAM. Após 36 anos de profissão aposentou-se em 31 de janeiro de 2002.

Por sua vida dedicada à comunicação e ao magistério mereceu sempre esse homem íntegro e de boa conversa a admiração e o respeito da sociedade de Pesqueira sua terra por adoção. E é por isso que recebeu o convite de Dr. Rodrigo Meira, Dr. Paulo Gamboa, Othon Augusto Almeida e José Lacy de Freitas para integrar o grupo de 21 sócios fundadores do Rotary Club de Pesqueira, instalado em 6 de fevereiro de 1972, sob a presidência do agrônomo José Lacy de Freitas.

Recebendo do Dr. Ciro Brito Miranda a placa alusiva aos 50 anos do Rotary

Geraldo Umbelino foi presidente do Rotary Club de Pesqueira nos anos rotarianos de 1980/1981 e 1985/1986, deixando como legado na sua administração a construção do marco que adorna uma das entradas de Pesqueira.

Inauguração do monumento do Rotary na entrada de Pesqueira

Em 1987 participou do grupo de 9 homens pesqueirenses livres e de bons costumes que fundaram a Loja Maçônica 20 de abril, a primeira representante do Grande Oriente a ser instalada no município de Pesqueira. Faziam parte deste grupo além de Geraldo Umbelino os senhores: Niel Borba de Carvalho, Devaldo do Rego Barros Rosa, Jorival França de Oliveira, Cosmo Joaquim, Luiz Gonzaga Rufino, Francisco Jabel França de Oliveira, Eleno da Silva Barros e Tarcísio Marques Monteiro.

Sendo homenageado na Loja Maçônica 20 de abril

No campo social a atuação de Geraldo Umbelino também foi marcante pela contribuição dada ao Dispensário dos Pobres mantido pela Fundação São Vicente de Paulo com vistas a ajudar os menos favorecidos, sobretudo, aos idosos.

Nos seus 90 anos de vida, são muitas histórias de dedicação e compromisso social deste ilustre cidadão pesqueirense. Destes, 63 anos são ao lado de sua amada e estimada esposa Maria Nancy Ramos Freire, de cujo matrimônio nasceram cinco filhos: Sandra Nancy Ramos Freire, Norma Suely Ramos Freire, Geraldo Umbelino Freire Júnior, Rômulo Ramos Freire e Isabelle Ramos Freire.

Geraldo Umbelino e Nancy ladeado por filhos e filhas, noras, genros e netos.

Todos os filhos são naturais da terra que Geraldo Umbelino aprendeu a amar desde que pisou o chão da princesa do agreste pernambucano há 75 anos, e que lhe adotou e dela se tornou um filho de coração, amando-a em todas as suas ações sempre pautadas na ética, na honradez e no compromisso social.

Por Fábio Menino de Oliveira

 

Referências Bibliográficas

ÁLBUM RÁDIO DIFUSORA DE PESQUEIRA - 30 anos forjando destinos, fazendo progresso. 15/11/1981.

DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE PERNAMBUCO – edições de 12/06/1974; 07/04/1976; 10/08/1985; e 13/03/2003.

FREIRE, Geraldo Umbelino. Entrevista concedida a Claudia Cristiane Cavalcanti em 29 de abril de 2025.

_______________________. Discurso na Comemoração dos 35 anos da Loja Maçônica 20 de abril em 22/04/2022.

O ABELHUDO. Aniversário de Geraldo Umbelino Freire – 5 de dezembro de 2024.

terça-feira, 29 de abril de 2025

PREFEITO LAÉRCIO VALENÇA (1951-1955)

Prefeito Laércio Valença.
Cortesia do seu filho Pe. Eduardo Valença

  

Laércio Vilela Valença nasceu na casa da fazenda de seu pai, nas margens do riacho Baixa Grande, em Pesqueira,  no dia 13 de janeiro de 1914. Filho do professor, escrivão da coletoria estadual e delegado de polícia, coronel Desidério Alves da Silva Valença (1868-1938) e de sua segunda esposa Galiana Hermínia Teixeira Vilela (1874-1927) casados em São Bento do Una no dia 06/06/1900.

Desidério Alves da Silva Valença

Neto paterno de Joaquim Alves da Silva Valença (1830-1884) e Cândida Emília Rodrigues (1836-1901) casados em São Bento do Una no dia 11/11/1857. Neto materno do major Cândido Carlos da Costa Vilela (1837-1907) e Francisca Quitéria de Barros (1843-1909) casados em Bom Conselho no dia 30/07/1873.

Laércio Valença teve 11 irmãos: Joaquim e Cândida Emília Mota Valença (filhos de Maria da Mota Valença, primeira esposa de Desidério Valença); Libério, José Desidério, Viterbo, Luiza, Laura, Teresa, Clarisse, Corsina e Maria Vilela Valença (2⁰ casamento).


Laércio e Ady no seu casamento em 1947
Cortesia do Pe. Eduardo Valença

Casou na Fazenda São Jorge (nova denominação da Cacimba de Paus, na região de Salobro) em 22/11/1947 com Maria Ady de Freitas Valença, nascida na Fazenda Cacimba de Paus em 15/04/1925.  Filha do major Jorge Rodrigues Pereira de Freitas e da sua segunda esposa Maria Umbelina de Freitas. Neta paterna do capitão José Rodrigues Pereira de Freitas e de Thereza Perpétua de Jesus Freitas “a jovem”, que casaram na Fazenda Mutuca em 08/11/1864. Neta materna de Martim Francisco Ignácio da Silva e Umbelina Benigna de Almeida.

Do matrimônio de Laércio e Ady nasceram 4 filhos: Eduardo, Célia, Sérgio e Mauro de Freitas Valença.

Laércio Valença era proprietário, criador e nos anos 1940 trabalhou na Fábrica Peixe, passando nos anos de 1950 a laborar na J. Freitas, empresa que representava a Ford em Pesqueira e que pertencia à Fábrica Peixe. Desempenhou também as funções de juiz substituto da Comarca de Pesqueira a partir de 1950.

Além das funções profissionais, passou a dedicar-se a política sendo nomeado prefeito de Pesqueira em 2 de agosto de 1947 e permanecendo no cargo até 15 de novembro do mesmo ano quando passou a prefeitura para Ésio Araújo que havia sido eleito em 26/10/1947.

A experiência de três de meses a frente do executivo municipal e o seu prestígio perante a sociedade pesqueirense levaram o Partido Social Democrático (PSD) a escolhê-lo como candidato a prefeito nas eleições de 1º de julho de 1951, obteve uma votação expressiva de 4.601 sufrágios contra 650 votos do candidato oposicionista Emílio Araújo Cavalcanti (Aliança Democrática – PDC/PTB).

Em entrevista ao jornalista M. Albuquerque do Diário de Pernambuco (17/06/1951) durante a eleição declarou como suas principais propostas realizar uma administração eficiente voltada para os interesses e os problemas mais urgentes do município, sobretudo, priorizar a conservação e ampliação das estradas interdistritais melhorando a malha rodoviária pesqueirense. Por seu ponto de vista, o jornalista o define como “cidadão modesto, trabalhador e esclarecido”, um verdadeiro “candidato popular”.

O prefeito Laércio Valença tomou posse em 15 de novembro de 1951 juntamente com o vice-prefeito Manuel Tenório de Brito e os subprefeitos distritais Malaquias Vieira (Poção) e Josué Bezerra Leite (Cimbres), todos do PSD. Como Secretario Municipal da Prefeitura assumiu Othon Augusto de Almeida. 

No legislativo municipal assumiram os seguintes vereadores: PSD (7) – Enedino de Freitas (Mutuca), Amaury de Brito (Mimoso), Manuel Soares de Macedo (Salobro), Epifânio Vasconcelos (Poção), Malaquias Medeiros (Poção), Severino Melo (cidade) e Luiz Neves (cidade); PDC (1) – João Elias de Macedo (Salobro); e PTB (1) – Dr. Petronilo de Freitas (cidade).

A mesa diretora seria formada no primeiro biênio 1952/1953 pelos vereadores Enedino de Freitas (Presidente), Epifânio Vasconcelos (Vice-Presidente), Amaury de Brito (1º Secretário) e Severino Melo (2º Secretário). Luiz Neves era o líder da maioria e Dr. Petronilo de Freitas, líder da minoria.

Sobre a sua posse na prefeitura assim escreveu o jornalista Eugênio Chacon no Diário de Pernambuco (04/12/1951): “Assume assim as rédeas do governo municipal um moço cheio de esperança, desejoso de conduzir à nau administrativa dentro dos ditames da democracia, aplicando sua inteligência e sua integridade aos negócios públicos (...)”. Destacam-se as palavras esperança, inteligência e integridade quando se refere a Laércio Valença.

Com as informações obtidas através dos jornais podemos destacar as seguintes obras e ações como prefeito de Pesqueira:

 

Criação do Plano Municipal de Assistência à Agricultura e à Pecuária

 

            Aquisição do terreno e construção do Posto Agropecuário de Pesqueira para atender os criadores e agricultores do município. Em ação conjunta fez a doação de um terreno da prefeitura no Sítio Pedra D’Água para que a União instala-se o Campo de Sementeira sob a orientação técnica do Fomento Agrícola Federal destinado à manutenção e cultura de produtos cuja finalidade seria a utilização pelo Posto Agropecuário.

 

Linha Telefônica de Poção

 

            Substituição dos postes da rede telefônica distrital que fazia a ligação entre Pesqueira e o ainda distrito de Poção que seria emancipado em 29/12/1953 durante o seu mandato. Além disso, fez os reparos e a manutenção em todo sistema de comunicação.

 

Restauração de máquina para o serviço de luz

 

            Conserto com substituição de peças e construção de nova base em concreto para motor na Usina Elétrica Municipal no intuito de sanar o problema da falta de luz tanto na iluminação pública como particular.

 

Reforma de um logradouro no Bairro do Prado

 

            Colocação de aterro, serviço de terraplanagem e construção de bueiros para melhorar o trafego de carros e caminhões na avenida principal do Bairro do Prado, à época em fase de expansão e desenvolvimento.

 

Calçamento na Rua Cardeal Arcoverde

 

Trecho da Rua Cardeal Arcoverde antes do calçamento
Álbum Ésio Araújo

       Iniciado em junho de 1952 o serviço de pavimentação em paralelepípedos da Rua Cardeal Arcoverde para concluir o trecho que faltava até encontrar a Praça Comendador José Didier.

 

Praça Dom José Lopes

 

            Inaugurada em 09/09/1941 passou por uma completa restauração dos seus jardins em 1954 para deixá-la ainda mais bela.

 

Galpão para silos

 

Construção em 1953 de galpão para instalação de 10 silos para armazenamento de 100 sacos cada, disponibilizados pelo Dr. Eudes Pinto de Souza Leão, Secretário de Agricultura do Estado, ação que beneficiava os agricultores. 

 

Apoio aos Jornais

 

Enviou para a Câmara de Vereadores o Projeto de Lei n⁰ 247/53 que concedia um auxílio mensal de 600 cruzeiros para apoiar os jornais Gazeta de Pesqueira, A Voz de Pesqueira e Folha de Pesqueira; e 250 cruzeiros trimestrais ao jornal literário O Itinerário.

 

Auxílio aos pobres 

 

Articulou junto a Legião Brasileira de Assistência (LBA) a distribuição de alimentos para as pessoas carentes do município durante a seca de 1953. A LBA distribuiu 600 kg de charque, 20 sacos de feijão, 20 sacos de farinha e 20 sacos de açúcar.

 

Cooperativa

 

Cooperação para instalação da filial da Cooperativa dos Rodoviários de Pernambuco ligada ao DNER em 1953, com vistas a prestar assistência médica e fornecer gêneros alimentícios aos trabalhadores da estrada Pesqueira-Monteiro. 

 

Aviação 

 

Por sua solicitação Pesqueira foi inclusa em abril de 1955 na rota área do interior através do Consórcio Real-Aerovias, uma das principais companhias áreas brasileira na década de 1950 e que operava com aviões Douglas DC-3 de pequeno porte ideais para aeroportos do interior e que pousariam no Campo de Aviação da cidade.

 

Fórum 

 

Apoio dado à magistratura e os serventuários da justiça com aquisição de móveis para as novas instalações do Fórum de Pesqueira inauguradas em 07/09/1953 pelo Dr. Cícero Galvão (juiz) e por Dr. Pedro Callou (promotor) em sala no prédio da atual Câmara de Vereadores.

 

Banco do Povo

 

Banco do Povo, primeiro andar à esquerda ao lado do antigo Pesqueira Hotel

Apoiou a construção do novo prédio da agência do Banco do Povo inaugurado em 22/08/1953, localizado na atual Praça Getúlio Vargas (antiga Marquês do Herval), onde hoje se encontra a agência do Bradesco. Estiveram presentes entre outros: o Comendador Antônio Martins do Eirado (representando a diretoria do banco), Dr. Renato Pires Ferreira (gerente da matriz), Pedro de Souza (deputado federal) e Abel Viana (prefeito de Caruaru). Vale ressaltar que o Banco do Povo já possuía um escritório em Pesqueira desde 19/09/1936, ao que consta foi o primeiro correspondente bancário a se instalar na cidade.

 

Posto de Puericultura

 

            Manteve o apoio dado por seu antecessor Ésio Araújo, recebendo em 05/06/1952 a visita do Dr. Orlando Parahym (Secretário de Saúde do Estado), do Dr. José Maurício (Diretor do Serviço de Proteção à Maternidade e à Infância do Estado) e do Deputado José Rodrigues (representante de Arcoverde na Assembleia Legislativa). Ambos vieram dialogar sobre os últimos ajustes para funcionamento do Posto que seria inaugurado em 02/08/1952.

 

Estrada Pesqueira-Monteiro 

 

A qualidade das fotografias não são boas, mas vale o registro pela importância da obra.

            A reportagem intitulada “A construção da rodovia interestadual Pesqueira-Monteiro/PB” publicada no Diário de Pernambuco (13/09/1952) trás importantes elementos que denotam a magnitude dessa obra e revelam a coragem e a determinação do prefeito Laércio Valença em tirar do papel um sonho antigo dos pesqueirenses.

           Em meados da década de 1920 o escritor Zeferino Galvão e o jornalista Anísio Galvão defendiam em artigos publicados na Gazeta de Pesqueira a importância dessa estrada para o progresso e o desenvolvimento da região com a ligação entre os estados de Pernambuco e da Paraíba cortando a Serra do Ororubá passando pela secular Vila de Cimbres até chegar a Monteiro numa extensão aproximada de 60 quilômetros.

            O jornalista chama a atitude do prefeito de “um atrevimento louvável”, na medida em que indaga como pode se fazer uma obra tão grande com um orçamento limitado? Visto que, as receitas municipais para o exercício de 1952 seriam de 3 milhões e 600 mil cruzeiros com igual despesa prevista. Portanto, de onde tirar recursos?

            A resposta, em primeiro lugar foi à coragem do prefeito que iniciou as obras em julho de 1952 contando apenas com as quotas constitucionais obrigatórias do Departamento Estadual de Rodagem (DER) que nos meses de julho e agosto foram de Cr$ 67.819,00 e nenhum centavo a mais. Mesmo com toda dificuldade de uma receita restrita a prefeitura ainda deu a contrapartida para que chegasse ao valor de Cr$ 120.000,00 gastos nos dois meses iniciais da obra.

            Para termos ideia da coragem do prefeito, além dos recursos minguados disponíveis tinha outros obstáculos ainda maiores para abrir a estrada cortando a íngreme Serra do Ororubá: penhascos, pedras e rochas em quantidades incalculáveis que necessitariam de um projeto de engenharia, maquinários adequados e um bom volume de recursos.

            Todavia, pasmem os leitores a estrada foi aberta sem máquinas, da forma mais primitiva possível com a força braçal de trabalhadores destemidos usando picaretas, alavancas, marretas, enxadas, pás e dinamites para explodir as pedras e rochas que eram retiradas com o auxilio do único equipamento mecânico disponível: um tratorzinho emprestado pelas Fábricas Peixe.

         Tudo isso era feito com a supervisão e liderança de Laércio Valença que dirigia os serviços pessoalmente e com um sorriso no rosto. O seu otimismo era tanto que disse ao repórter: “A estrada tem que sair nem que eu bote talhadas de sangue!” Percebe-se a obstinação de um homem de boa vontade e ação em busca dos seus objetivos, mesmo diante da incredulidade de muitos que achavam impossível a obra.

Subida do Bairro Xucurus, antiga estrada para Cimbres em 1955
Fonte: IBGE

            Ao que consta o trajeto original da antiga estrada de Pesqueira a Vila de Cimbres foi mudado para que não tivesse uma subida tão íngreme, uma vez que o antigo acesso se dava pelo Bairro do Xucurus passando pela chamada Serrinha. Com isso o novo trajeto passou a iniciar na Avenida Ésio Araújo confrontando com a Rua Carlos da Silva Leitão, a popular Avenida do Estádio. Cabe registrar que com a abertura da estrada por esse novo caminho surge o Bairro da Caixa D’Água.

            No início da década de 1980 quando iniciaram as obras de pavimentação da estrada, Francisco Leone defendia no Diário de Pernambuco (30/01/1981) que o nome de Laércio Valença fosse colocado na PE 219 como homenagem ao prefeito e justifica: 

 

“[...] Observo que máquinas pesadas trabalham na antiga estrada de Monteiro. Aquela subida poeirenta lembra-me o pioneirismo de Laércio Valença, abrindo na rocha, apenas com picaretas e marretas, suor e muito amor a Pesqueira a estrada de Monteiro. As grandes máquinas rasgam a Serra, indiferentes, talvez, ao trabalho realizado por Laércio na década de 50, quando prefeito do município. Trabalho executado ombro a ombro com operários dedicados, enfrentando problemas financeiros e, a bem da verdade, incompreensões de visões limitadas, de negativistas. Os da minha geração sabem que não estão mentindo.[...]”

 

            Esse trecho revela a magnitude da iniciativa do prefeito Laércio Valença, basta pensarmos que na atualidade mesmo dispondo de projetos rodoviários usando tecnologia de ponta, equipamentos de última geração e recursos financeiros bem mais volumosos que outrora, como explicar tantas rodovias em péssimas condições no nosso país? Falta boa vontade, ação e coragem aos nossos políticos, com raras exceções, e sem dúvida alguma o cidadão Laércio Valença foi uma delas há longínquos 73 anos.

        Depois de deixar a prefeitura, Laércio Valença ainda fundaria a Companhia Telefônica de Pesqueira CTP em 1968, e em janeiro daquele já tinha 130 assinantes para instalação de telefones automáticos em suas residências. Trazendo em março do mesmo ano as primeiras 70 unidades de telefones automáticos para serem comercializados em Pesqueira.

            Láercio Vilela Valença faleceu em Pesqueira no dia 11 de julho de 1981, deixando o legado de integridade, trabalho e coragem que norteou a sua vida como homem da justiça e da política com princípios morais e atitudes sempre voltadas para o bem comum, foi outro exemplo de quem fez do cargo público um ato de servir.

 

Por Fábio Menino de Oliveira

 

Referências Bibliográficas 

DIÁRIO DE PERNAMBUCO - edições de 02/08/1947; 10/06/1950; 17/06/1951; 17/10/1951; 04/12/1951; 22/06/1952; 13/09/1952; 08/05/1953; 29/08/1953; 14/10/1953; 02/10/1954; 03/04/1955; 26/01/1968; 21/07/1979; e 30/01/1981.

FAMILY SEARCH https://www.familysearch.org/pt/tree/pedigree/landscape/G6MR-2FN 

sexta-feira, 25 de abril de 2025

PREFEITO ÉSIO ARAÚJO (1947-1951)


 

Ésio Magalhães Araújo nasceu em Pesqueira no dia 26 de março de 1912. Filho de José Araújo e Albuquerque – fundador das Casas José Araújo em 1890 - e de Maria Magalhães de Araújo “D. Santa. Neto paterno do Major Thomás de Araújo e Albuquerque e Guilhermina Filotéia de Oliveira Melo, irmã entre outros do Cel. Didier do Rego Maciel. Neto materno do português Guilherme Rodrigues Belas e Cândida Magalhães da Silva Porto.

Casou em Pesqueira no dia 29 de outubro de 1938 com Dulzaura Mattos Guerra Paraíba que depois de casada passou a assinar Dulzaura Paraíba Araújo “D. Dulzinha” (Pesqueira, 18/06/1918 – Recife, 21/12/1983). Filha do médico rio-grandense radicado em Pesqueira, Dr. Lídio Paraíba e Acilda Mattos Guerra Paraíba.

Ésio e D. Dulzinha tiveram 6 filhos: 1 – Maria Enilda Paraíba Araújo (Pesqueira, 03/11/1939) casada com Ivan Brindeiro; 2 -  Glauce Paraíba Araújo (Pesqueira, 16/03/1941); 3 – Ana Júlia Paraíba Araújo (Pesqueira, 26/07/1947 – Recife, 27/05/2003); 4 -  Marília Paraíba Araújo (Pesqueira, 30/05/1945) casada com Rogério Teixeira Cavalcanti; 5 – Maria Paraíba Araújo (Recife, 22/04/1950 – 25/04/1950); e 6 – Ésio Magalhães Araújo Filho (Pesqueira, 26/06/1952) casado com Edna Lúcia de Melo Araújo.

Engenheiro Agrônomo formado em 1934 pela Escola Superior de Agricultura de São Bento, zona rural de Tapera, município de São Lourenço da Mata; criador de cavalos da raça inglesa, sendo proprietário do Haras Pesqueira; comerciante e diretor presidente da Auto e Acessórios Zé Araújo S/A; membro da Comissão de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (CODEPE); e sócio fundador da Federação das Associações Rurais de Pernambuco (FARP).

Com esse currículo e gozando de prestígio entre a sociedade pesqueirense foi escolhido como candidato a prefeito pelo PSD vencendo na disputa o comerciante Adalberto Araújo Cavalcanti (PRP) no pleito realizado em 26 de outubro de 1947. Vale salientar que esta foi à primeira eleição democrática após onze anos, uma vez que a última tinha sido em 21/04/1936. Porquanto, no período de 17/10/1930 a 15/11/1947 todos os prefeitos foram nomeados em razão da Revolução de 30 e do Estado Novo, a exceção foi o tenente Dorgival Galindo que foi eleito em 1936, sendo afastado em 11/12/1937 pelo Estado Novo.

Ésio Araújo assumiu o mandato em 15 de novembro de 1947 na volta do regime democrático e nele permaneceu até 15 de novembro de 1951. Por coincidência o seu antecessor e sucessor foi o também competente prefeito Laércio Vilela Valença, sobre o qual trataremos em artigo posterior.

Na época o cargo de vice-prefeito era exclusivo de cidades com arrecadação superior a 100 milhões de Cruzeiros, com isso apenas em 6 cidades pernambucanas houve eleição para o cargo (Recife, Olinda, Jaboatão, Vitória de Santo Antão, Caruaru e Garanhuns). Nos demais municípios eram escolhidos subprefeitos de acordo com a densidade demográfica variando entre um e quatro.

No caso de Pesqueira, foram eleitos três subprefeitos: Alberto de Castro Sá Barreto (Pesqueira – distrito sede); João Alves Bezerra (Cimbres – 2º distrito) e Malaquias Batista Vieira de Melo (Poção – 4º distrito). Além destes colaborava com a administração o Secretário Municipal da Prefeitura, cuja função era desempenhada por Luís de Oliveira Neves, ainda jovem e que ganharia destaque na política pernambucana.

Para a Câmara de Vereadores foram eleitos 10 edis: Manuel Tenório de Brito, Félix Alves Maciel, Epifânio Vasconcelos, Enedino de Freitas Mendonça, Tito Cordeiro Wanderley, Luiz Ferreira da Rocha, Luiz Clóvis de Freitas, José de Almeida Maciel – renunciou em 10/02/1949 e foi substituído por Laurentino Ventura Caracciolo (PSD – bancada da situação), Luiz Gonzaga Almeida (PDC) e Genésio de Oliveira Rosas (PRP). Estes dois últimos formavam a bancada de oposição.

Pois bem, feita estas linhas introdutórias convido os leitores a observarem a preocupação que o prefeito Ésio Araújo demonstrava com o desenvolvimento de nossa Pesqueira. Nesta entrevista concedida à Folha de Pesqueira, há 76 anos, ao jornalista Paulo de Oliveira, que também era diretor e editor do jornal, ele aborda os desafios administrativos enfrentados para dotar Pesqueira de infraestrutura básica, pavimentando o caminho rumo à modernidade.

O conteúdo da entrevista representa uma verdadeira lição para os prefeitos da atualidade, na medida em que Ésio Araújo evidenciava um compromisso exemplar com as finanças públicas, prezando pela correta aplicação dos recursos e pela transparência nas informações prestadas à população.

Apesar de datada de 23 de janeiro de 1949, essa entrevista continua atual em diversos aspectos, revelando que, já naquela época, havia gestores comprometidos com o bem comum e que conduziam a gestão pública com seriedade e responsabilidade.

Leiam a entrevista:

 

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    A AÇÃO ADMINISTRATIVA DO PREFEITO ÉSIO ARAÚJO

 

Precisamente em janeiro do ano findo este jornal dava ao público importante reportagem intitulada “RUMOS CERTO” sobre a atividade administrativa do dr. Ésio Araújo, em apenas dois meses que havia assumido o governo constitucional do município. E falou-nos então o prefeito pesqueirense sobre o volume de vales acumulados nos cofres da municipalidade, dando aos mesmos regularidades, através de créditos voltados pela Câmara Municipal.

FOLHA DE PESQUEIRA, reiniciando hoje sua publicação, precisamente no mês que coincide com aquela reportagem de que nos ocupamos oferece ao público este amplo noticiário obtido através de uma entrevista que nos concede o Sr. Ésio Araújo.

Encontramos o prefeito em seu gabinete de trabalho e manifestamos-lhe o desejo de ouvi-lo numa palestra que seria bem uma demonstração das atividades do seu governo, durante o ano findo. Atendendo-nos com a gentileza que lhe é peculiar, o ilustre pesqueirense à primeira indagação que fizemos, sobre qual o aspecto financeiro da Prefeitura em 1948, disse-nos, que durante o ano findo a arrecadação do município ultrapassou a todas as expectativas.

O Orçamento teve a sua receita prevista em Cr$ 1.220.000,00 (...) enquanto que a arrecadação atingiu Cr$ 1.904.532,60 (...), que resultou em superávit de Cr$ 684.532,60. Juntando-se a quantia de Cr$ 1.904.532.60 (...) arrecadada no exercício de 1948, com o saldo que veio de 1947 para o exercício em tela teremos o total de Cr$ 2.035.159,80 (...).

Ora, confrontando-se as receitas arrecadadas entre 1947 e 1948, encontraremos uma diferença de Cr$ 598.388,00. E é oportuno frisar que se a Prefeitura tivesse recebido a quota completa do governo federal, a que tem direito, conforme lei nº 305, de 18 de julho do ano findo, como igualmente a quota de 50% do Estado, referente ao Imposto Territorial Rural, a receita do município, em 1948, ascenderia, indubitavelmente a dois milhões de cruzeiros.

Concernente à despesa – continua o prefeito – esta ficou mais ou menos equilibrada com a receita, incluindo-se o saldo que veio de 1947, pois durante o exercício que terminou a municipalidade dispendeu, nos diversos serviços públicos com a quantia de Cr$ 1.936.343,00. Vê-se, pois, que a despesa foi invertida na justa proporção da capacidade financeira do município, atendendo assim ao interesse comum da coletividade. A Prefeitura está em dia com o comércio e o funcionalismo – concluiu o Sr. Ésio Araújo à nossa primeira indagação, sobre o estado financeiro do município no ano findo.

Abordamo-lo então sobre quais os melhoramentos executados na cidade e qual o montante dos dinheiros aplicados. E continuou a falar-nos acrescentado ter o melhor prazer em declarar como fora aplicado o dinheiro público, acentuando que a maior obra realizada no ano findo fora a ampliação do prédio da usina elétrica e concomitantemente, o conserto do motor “National” de 90 HP que, há quase quatro anos, estava sem funcionar, hoje, porém, em pleno funcionamento e fornecendo energia a três secções.

É de justiça acentuar que muito se deve ao ex-prefeito Sr. Laércio Valença, pelo inestimável serviço prestado quando da soldagem e do assentamento do eixo da máquina geradora, trabalho este que requereu de sua pessoa um esforço extraordinário, comprovante da sua competência por tão delicado empreendimento. Vale acrescentar os serviços de grande monta, como por exemplo: a construção da caldeira; a confecção de um quadro elétrico; a distribuição de nova rede no interior do prédio; a construção ainda de um prédio onde irá funcionar uma bomba destinada ao abastecimento d’água à usina – serviço precaríssimo, de ver que prejudicava seriamente o funcionamento das máquinas, dada a falta d’água para a necessária refrigeração.


 Adquirimos quatro grandes transformadores


E o prefeito numa conversa fluente continua dizendo que foram adquiridos quatro grandes transformadores e instalados cinquenta postes de cimento armado em diversas artérias da cidade, alguns focos de luz fluorescente, como se verifica na Rua Duque de Caxias e Praça Dom José Lopes. Nesses melhoramentos a municipalidade dispendeu com a quantia de Cr$ 277.411,60. O problema de luz está, assim, em dias de ser definitivamente resolvido, pois, pouco falta para os serviços serem concluídos.


No setor urbanístico

 

É ainda o Sr. Ésio Araújo que esta com a palavra, dizendo que não se descurou das cousas urbanísticas da cidade, acrescentando que providenciou a vinda à Pesqueira da Secretaria de Viação e Obras Públicas, para fazer um novo levantamento topográfico da cidade. Antes disso, porém, iniciou as obras de assentamento de meio-fio na Rua Barão de Lucena, numa extensão de 109 metros, tendo iniciado a pavimentação da Avenida Comendador José Didier, cuja área calçada já mede quinhentos e vinte e nove metros quadrados. Nessa artéria foram construídos mais de duzentos metros de galerias em tubo de dezesseis polegadas para o escoamento das águas pluviais.

Em início de janeiro do ano recém-findo, a prefeitura indenizou um prédio sito a Rua Maestro Tomaz de Aquino, o que veio atenuar bastante o aspecto desagradável ali então existente, visto que dito prédio impedia o trânsito de pedestres e veículos. É de notar que foram executados serviços de terraplanagem em diversas ruas da cidade, além dos trabalhos de conservação do campo de aviação e mais os de melhoramentos de jardins, conservação de uma variante com obra de arte, em demanda à rodovia central, bem assim a construção de uma bueira.

 

Melhoramentos nos distritos

 

Interrompeu o prefeito, a conversação para assinar um volume de documentos que o secretário da prefeitura colocara na mesa. E logo depois voltou à palestra, quando falamos-lhe se havia sua ação de trabalho se estendido aos distritos. - Perfeitamente – disse-nos com certo entusiasmo. Auxiliada pelo Departamento de Estradas e Rodagem a prefeitura iniciou a construção de um pontilhão no lugar denominado “Izabel Dias”, trecho entre Pesqueira e as vilas de Poção e Jenipapo, dispendendo Cr$ 14.043,00. Referente às rodovias o governo municipal procurou melhorar o mais possível às comunicações interdistritais, sendo conservados 19.118 metros da rodagem Pesqueira-Alagoinha-Venturosa. O mesmo sucedendo nas rodovias Pesqueira-Poção, Povoado de Mutuca, com 31.591 metros; Sanharó-Jenipapo, com 8.704 metros; Socorro-Alagoinha, com 5.304; Mutuca-Amarela, em ligação com o município de Brejo da Madre de Deus, 6.087 metros; Cimbres-Curral de Bois, 672 metros; Pesqueira-Socorro, com 2.609; Salobro-São Bento do Una, com 985. Pesqueira-Salobro com 5.000 metros; e pequenos melhoramentos e consertos num total de 28.105 metros.

No tocante aos currais – acrescenta o Sr. Ésio Araújo – para recolhimento de animais em dia de feira, praticamente não existia um só. Por esse motivo foram construídos os de Poção e Jenipapo, melhorados os de Alagoinha, Mutuca e Mimoso, e adquirido um terreno para a construção de outro no povoado de Socorro.

A Usina elétrica de Poção estava necessitando de sérios reparos ordenados em relação ao elevado padrão de vida que presentemente atinge a todas as camadas sociais do país.

 

A estrutura do orçamento de 1949

 

Indagamos do prefeito Ésio Araújo sobre a estrutura do orçamento de 1949 e, à pergunta que sacudimos, disse-nos que a receita prevista para o exercício vigente foi calculada de acordo com a arrecadação do ano de 1947, num montante de Cr$ 1.900,000,00. Na parte referente às taxas, foi incluída a de Contribuição de Calçamento que não constava nos orçamentos anteriores. Manuseando os orçamentos dos municípios mais adiantados do Estado, encontrá-la-emos figurando nos mesmos, desde há muitos anos.

Dita contribuição obriga os proprietários de prédios e terrenos situados em vias e logradouros públicos onde for calçado, ao pagamento das respectivas taxas, o que seria realizado em dez anuidades, na ocasião do pagamento do Imposto Predial. A despesa foi fixada em quantia idêntica à da Receita, obedecendo, estritamente, ao que preceitua a Constituição do Estado.

 

O Senado da Câmara de Cimbres

 

Quanto ao Senado da Câmara de Cimbres, a municipalidade já dispendeu com Cr$ 11.100,00 para a sua restauração, tendo adquirido portas, janelas e outras cousas mais, de modo a que venha a tradicional e história casa do parlamento adquirir muito do seu primitivo aspecto arquitetônico.

 

As escolas rurais

 

Já estão construídas as de Poção, Mimoso e Sanharó, em via de conclusão a de Cimbres. Esses prédios das escolas rurais foram construídos com um plano estabelecido entre o Ministério de Educação e o Governo do Estado. Para reforço de suas paredes e melhor cobertura, o município auxiliou com a quantia de Cr$ 8.687,00.

 

Pequenas diferenças nas rendas dos distritos de Sanharó e Alagoinha

 

Falamos ao Sr. Ésio Araújo sobre o palpitante assunto que tem sido a emancipação dos distritos de Sanharó e Alagoinha. Adiantou o entrevistado, naturalmente, que fará alguma diferença à receita do município, talvez que de uns duzentos mil cruzeiros, incluindo o distrito de Jenipapo. Este ano porém, Pesqueira terá a mais do que o ano passado vinte e cinco por cento de imposto de Indústria e Profissão, perfazendo o total de 75%, cujas importâncias são entregues a prefeitura pela coletoria estadual, quinzenalmente levantaremos também em conta a contribuição do governo federal, que por uma lei reguladora do assunto, segundo uma circula recentemente recebida, terão os municípios, no corrente exercício, as suas quotas aumentadas para Cr$ 220.000,00. Igualmente foi aumentada a quota do governo do Estado de 50 para 70% do Imposto Territorial.

O município com o que tem a receber cobrirá a falta que, financeiramente, poderia fazer os distritos de Sanharó, Alagoinha e Jenipapo. Naturalmente, que se esses distritos tivessem integrando o território pesqueirense, logicamente que a renda seria maior. Mesmo assim, contentamo-nos com o que ficou. Somente não nos contentamos pelo lado moral e social, porque vivíamos ligados desde o começo de nossa vida administrativa e agora nos separamos sem esperança de nos unirmos novamente.

 

Do domínio da Instrução Pública

 

Prosseguindo com a palavra, responde-nos o prefeito algo sobre a instrução municipal, dizendo que foi o que com mais carinho olhou logo que assumiu o governo. As vinte e nove escolas rurais subvencionadas, dois meses depois foram aumentadas para cinquenta e duas, havendo, portanto, um aumento de vinte e três escolas, ou seja, 78% a mais. Em alguns distritos, nas casas de aulas, os seus proprietários mantinham cafés, hotéis, etc., tudo isso funcionando conjuntamente com a escola. Logo informado, tomei providências imediatas alugando salões que se adaptassem ao fim requerido. Durante o exercício que se inicia, a prefeitura procurará, dentro de suas possibilidades, suprir as escolas municipais de todo o material didático e pedagógico de que estão necessitando.

 

Abono de Natal

 

Perguntamos se o funcionalismo fora contemplado com o abono de natal ao que respondeu que a Câmara Municipal aprovara em dezembro último uma lei concedendo aquele benefício aos servidores municipais. Não poderia ser negada tal concessão de vez que a mesma vem sendo concedida há anos pelos prefeitos anteriores, inclusive ele próprio. Nessa parte foram automaticamente aumentados os vencimentos de todos os funcionários, inclusive pensionistas.

 

O serviço de abastecimento d’água da cidade

 

Um serviço dos magnos problemas de Pesqueira é o da melhora do serviço de abastecimento d’água à população. Pedimos ao governador do município alguma coisa com que pudéssemos informar aos nossos leitores. Disse-nos então que o serviço do açude “Afetos” vai ser concluído ainda este ano, como lhe prometera pessoalmente o governador Barbosa Lima Sobrinho. No início do ano findo, o governo do Estado citou, conforme mensagem à Assembleia Legislativa, todas as dotações que se referiam ao Fundo de Saneamento do Interior.

Em Recife entrou em entendimento com o industrial Manuel de Britto e o deputado Arruda Marinho e todos em palácio mostraram ao governador Barbosa Lima Sobrinho o prejuízo que essa medida iria causar à Pesqueira, tendo então o chefe do executivo estadual prometido ajudar o andamento dos serviços do açude “Afetos” com uma verba mensal que, embora modesta, não ficariam os trabalhos paralisados. Mas o governador Barbosa Lima Sobrinho fez mais do que prometeu, prontificando-se, por fim, a concluir no seu governo, aquele importante melhoramento público. A prefeitura tem facilitado tanto quanto possível a ação dos engenheiros encarregados dos serviços.

 

A população está satisfeita

 

A curiosa bisbilhotice desta reportagem informou ao prefeito que, ao que se dizia nos bastidores da cidade, a população pesqueirense está satisfeita com o seu governo. E em tom de quem encerra a entrevista já íamos com cerca de sessenta minutos de palestra, falou-nos textualmente o Sr. Ésio Araújo:

Concluindo minhas declarações, tenho a dizer que certas acusações que de quanto em vez, surgem, não partem de um grupo maciço. A oposição, a verdadeira oposição de minha terra, pelas atitudes de seus líderes, não faz a menor restrição aos meus atos administrativos. A moção que a Câmara de Vereadores me dirigiu, no dia 15 de novembro último, era assinada por dois representantes dos partidos oposicionistas. A moção é clara e concisa, não deixa margem a comentários desairosos. São unânimes os srs. Vereadores municipais em apoiar todos os meus atos, pois eles refletem o sentimento de um pesqueirense que só deseja ter em vista a grandeza de Pesqueira.

Como administrador, só prejuízo venho tendo, ao contrário de muitos que se aboletam no poder para enriquecerem facilmente. Infelizmente, este é um dos quadros desoladores que ultimamente o Brasil tem apresentado ante os olhos de seus filhos.

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            A leitura da entrevista por si já revela a profícua administração do prefeito Ésio Araújo com apenas 1 ano e 2 meses de mandato, muito ainda seria feito e o mesmo foi muito perspicaz e sábio ao incluir os feitos de sua gestão exitosa num Álbum Administrativo contendo as ações e conquistas do seu período à frente da Prefeitura Municipal de Pesqueira e que serão ainda muito mencionadas por este site.

          Faleceu no Hospital Português em Recife no dia 18 de fevereiro de 1955 pouco antes de completar 42 anos, moço ainda, poderia ter deixado um legado ainda maior para Pesqueira, tanto é que tinha o nome lembrado para disputar o mandato de Deputado Estadual, e não o quis por achar que já havia cumprido a missão enquanto prefeito.

     Parafraseando o próprio Ésio Araújo quando discursou por ocasião da morte de outro saudoso pesqueirense, Jurandir Brito de Freitas, no longínquo ano de 1947: “Foi à morte prematura da bondade”. Morreu o homem, mas seu legado administrativo ainda permanece na Pesqueira da atualidade, pois, foi alguém que fez da política o ato de servir e não dela servisse.

 

Por Fábio Menino de Oliveira


Referências Bibliográficas

 

DIÁRIO DA MANHÃ. Recife/PE, edições de 18/11/1934; 31/10/1947; e 25/05/1950.

FOLHA DE PESQUEIRA. Ano II, Nº XII, Pesqueira/PE, 23/01/1949, páginas 1 e 3.

JORNAL PEQUENO. Recife/PE, edição de 03/09/1947.

WILSON, Luís. Ararobá, Lendária e Eterna. CEPE/Pref. de Pesqueira. Recife: 1980.